sexta-feira, 7 de junho de 2019

Culto ao esforço


Se você tiver a oportunidade, pergunte aos seus pais e avós como era a qualidade de vida deles quanto tinham a sua idade. Escute a história que eles têm para contar, observe as prioridades deles na época, os objetivos de vida que tinham, as preocupações e valores morais que faziam parte do seu dia a dia. Pergunte também sobre as condições físicas, financeiras, emocionais e culturais.
Dentro do desenvolvimento saudável do ser humano, é necessário que em um dado momento da sua infância ele consiga se distinguir da mãe e do pai. Quando essa desfusão não acontece o indivíduo cresce acreditando que o jeito de viver dos pais é o único no mundo e que portanto, é o seu também, ele constrói então uma simbiose relacional onde ele e o pai ou a mãe são a mesma pessoa. 
Então, se este processo não aconteceu naturalmente, quando adultos podemos conhecer a realidade dos nossos familiares para nos ajudar a separar a história deles da nossa. Há pessoas que carregam por gerações a fio uma crença que é altamente prejudicial para os dias atuais, mas que por nunca ter sido questionada, acaba se tornando uma regra fixa.
A valorização do trabalho e dos esforços para conquistar coisas, espaço e poder demonstram esta situação sistêmica. Ás vezes existe uma identificação tão intensa com a história passada dos próprios familiares que a pessoa sem perceber, acaba reproduzindo o mesmo modo de viver de alguns membros da família: buscam os mesmos empregos, os mesmos salários, a mesma satisfação ou insatisfação, e até mesmo os mesmos desgastes físicos, mentais e emocionais.

Algumas pessoas relatam:
“Mas eu aprendi com o meu pai a viver pro trabalho”
“Mas a minha mãe disse que descansar é coisa de vadio e de quem não quer nada com a vida”
“É como a minha família sempre diz: 'Agora é a hora de eu produzir e render pra um dia poder descansar na velhice'”...

Neste sentido, há famílias que cultuam o esforço e o sofrimento no meio profissional, nem se questionam sobre o porquê, até porque acreditam que sofrimento e trabalho estão ligados sendo impossível quebrar esta relação. São pessoas que aprenderam a viver somente para suprir as  necessidades mais primitivas da vida, e que precisaram negligenciar as próprias emoções em prol da sua existência. Não podiam sentir medo, sono, cansaço porque a vida exigia pressa e produtividade, logo, tiveram que inconscientemente bloquear os seus sentimentos e viver como se fossem máquinas. E mesmo que os anos se passem, continuam vivendo desse jeito: se culpam por descansar, quando pegam férias se cobram, sentem vergonha de admitir as suas vulnerabilidades, desenvolvem crises de ansiedade e adoecem quando param de trabalhar...
E então aquela crença de que "um dia vou descansar" não se concretiza uma vez que não se aprendeu a descansar, não se autoriza a sentir prazer e ter momentos de lazer.
É por isso que te questiono: Qual o sentido que a vida profissional tem para você?, e este sentido, foi você quem criou ou ele foi construído por alguém que não é você?
Se apropriar dos nossos objetivos na vida é uma forma de fortalecer a nossa identidade e obter mais satisfação no nosso dia a dia, é dessa forma que conseguiremos separar a nossa história de vida daquela que nossos familiares tiveram.
Então, te sugiro refletir sobre a possibilidade de viver para além do trabalho, em construir outros papéis na sua vida tão importantes quanto o de profissional. A qualidade de vida é conquistada quando permitimos que cada área da nossa vida tenha uma representação saudável e compatível com a realidade: ser pai, mãe, profissional, amigo, filha, neto, estudante, merecem espaço na nossa história, e podem nos abrir um novo mundo de possibilidades e, de crenças, porém agora, autorais, personalizadas por nós mesmos e com base nas nossas próprias experiências.

domingo, 5 de maio de 2019

Psicoterapia pelo bem da nossa saúde emocional


Gosto de perguntar ao paciente que me procura se é a primeira vez que ele faz psicoterapia e o que sabe sobre o processo terapêutico, é uma forma de compreender como ele lida com a sua saúde mental e se possui alguma crença errônea sobre o trabalho terapêutico. Algumas pessoas vem tímidas ao consultório, aparecem inseguras, desconfiadas... Mas ao longo da psicoterapia revelam frases como: "por que eu não iniciei antes?", "Tô falando pra todo mundo vir fazer terapia", "Há um tempo atrás eu faria totalmente diferente", "Como não enxerguei isso antes?", "Sou uma nova pessoa"...
A Declaração dos Direitos Humanos defende a ideia de que a saúde é um direito universal, contudo, algumas políticas governamentais não facilitam o acesso à ela, principalmente no âmbito da saúde mental. A exigência social em torno do poder e sucesso, imediatismo e baixa tolerância à frustrações contribuem para o desenvolvimento dos transtornos mentais e, sem um suporte psicológico e psiquiátrico, o agravamento de quadros psicopatológicos aumenta.
O ser humano não é uma receita de bolo única, nem um robô que tem a mesma programação. Somos únicos e por isso, complexos. É por isto que oferecer métodos universais de cura para o sofrimento psíquico é altamente perigoso. A psicoterapia então se faz necessária porque é através de uma ciência que estuda o comportamento humano (psicologia) que é possível respeitar e compreender a singularidade de cada indivíduo oferecendo o tratamento adequado de acordo com cada história de vida.
Cada ser humano que senta em frente ao psicólogo, está carregando consigo um passado repleto de dores e amores, o que ele fala não é necessariamente o que ele diz, as palavras nem sempre conseguem traduzir a dor ancorada naquele corpo, mas, o profissional da psicologia clínica possui capacitação para ouvir o que não é dito e oferecer uma intervenção importante para aquilo que ficou nas entrelinhas.
Na correria do dia a dia não paramos para refletir sobre as nossas ações, nem para prestar atenção no nosso corpo, muito menos nas nossas emoções. A alta demanda de trabalho, as cobranças sociais em torno de um "dar conta de tudo", os preconceitos e julgamentos muitas vezes impossibilitam a espontaneidade das pessoas, gerando seres automáticos e engessados.
Mas, como conseguiremos colocar a vida em movimento se não dermos atenção para aquilo que nos orienta? Não é possível trabalhar com qualidade se nossas emoções estão conturbando nossa forma de pensar e agir. É por isso que se conhecer se faz necessário, o autoconhecimento proporciona tomada de consciência do próprio funcionamento. Costumo dizer que quando entramos em um processo terapêutico passamos a descobrir qual o é o mapa da nossa vida, vamos conhecendo cada caminho, identificando atalhos, percebendo os becos sem saída. E decidindo caminhar pelo roteiro que mais combina com os nossos objetivos.
A psicoterapia não oferece respostas prontas, nem soluções para problemas. Mas ela oferece recursos para ajudar cada paciente a descobrir e construir as suas próprias respostas, desenvolver resiliência e se reconciliar com a sua história.
Não espere sofrer para reconhecer a importância de cuidar do seu eu, o autoconhecimento pode iniciar mesmo que não exista uma dor dilacerante. Você não tem que dar uma chance para a psicoterapia, você precisa dar uma chance para a sua saúde emocional, para você.



Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira


Estamos na era das fake news: onde a mentira é utilizada para chamar a atenção. Você já percebeu o quanto estamos carentes de olhares a ponto de precisarmos construir uma mentira para sermos vistos?
Criamos, fantasiamos, inventamos algo que não é real no concreto mas sim na nossa imaginação e que serve de marketing ou chamariz para uma mente tão carente como a nossa.
Mentimos para ganhar atenção, para sermos vistos com admiração: a gente aumenta e inventa, mentimos pra ganhar e para não perder: para ganhar o amor de quem queremos conquistar, e para não perder a admiração daquela pessoa de quem ainda necessitamos de aprovação e que se descobrisse a verdade rejeitaria profundamente as nossas escolhas, mentimos para negar a realidade que nos causa dor. Mentimos porque em algum momento aprendemos que mentir funciona, que causa algum efeito. Até ser descoberta.
Mas será que as piores mentiras realmente são aquelas que escondem do outro o direito de saber a verdade ou se é aquela que contamos a nós mesmos?
É que quando deixamos de prestar atenção em nós mesmos, acabamos não percebendo o nome de cada emoção ou sentimento que habita em nós. É assim que nos afastamos de quem verdadeiramente somos para nos aproximarmos de quem achamos que devemos ser. Queremos tanto agradar o outro que sem perceber nos desagradamos.
Vale a pena refletirmos: Será que se tivéssemos carinho e atenção de qualidades precisaríamos construir falsas notícias para sermos vistos? As fake news trazem suas consequências, muitas vezes desastrosas, mas elas são sintomas de uma sociedade carente e entediada que não aprendeu a lidar com a falta, que não sabe reconhecer o limite entre a carência e a tragédia.
Por isso hoje tente perceber qual a maior mentira que você insiste em contar pro outro e principalmente, para si. Observe as consequências deste faz de conta.
Que possamos descobrir as mentiras que se abrigam nos cantos escuros da nossa mente, e que saibamos fazer as pazes com o que ali encontrarmos, de verdade.

domingo, 31 de março de 2019

Foi a vida que te esqueceu ou foi você que se vitimizou?


Uma das piores dores é a de se sentir excluído, você provavelmente sabe do que eu estou falando. Parece que todo mundo tem o seu lugar no mundo menos você que se sente um ser à parte, um ponto fora da curva, uma pessoa completamente deslocada, negligenciada, esquecida. “Todo mundo” está feliz - você pensa. “Todo mundo” está se divertindo - pelo menos é o que você vê nas suas redes sociais.

E é assim que você começa a questionar a sua própria vida, a criticar as suas escolhas, a se diminuir pelo fato de simplesmente ter uma vida diferente daquela que os outros aparentam ter. Você generaliza a felicidade alheia para intensificar a sua miséria, você usa de fragmentos de uma rede para condenar a sua própria vida, e talvez nem perceba mas cada vez que faz isso mais você se vitimiza diante da vida, como se o universo estivesse à favor de todos exceto de você.
E sim, pode ser que realmente as pessoas que você acompanha nas redes sociais estejam felizes, estejam se divertindo de verdade, aproveitando a vida. Mas essa é a vida que elas estão escolhendo, construindo, e você, o que está fazendo com a sua oportunidade de viver?

Por que tanto desprezo por si? Quando foi que você aprendeu a hipervalorizar as conquistas do outro e diminuir as suas? É que não estamos falando somente de conquistas, estamos falando de valorizar as próprias experiências, valorizar a sua própria vida.

Parece que aí dentro de você mora um indivíduo sabotador: que faz questão de olhar para os lados pra rejeitar o que está bem debaixo do próprio nariz. Isso te lembra alguém?

Pois é, deve ter sido muito dolorido receber um dar de ombros quando se queria ganhar um “parabéns”, deve ter sido muito frustrante receber um “não fez mais que a sua obrigação” quando na verdade você queria só um abraço de orgulho e admiração, e pra não viver toda essa dor novamente seu inconsciente aprendeu a esquecer de si e olhar somente para o outro, foi assim que você se tornou um cobiçador da vida alheia.

Você não precisa dar continuidade nesse aprendizado arcaico e infantil. Sabia disso? As vezes quem te ensinou, não sabia que também podia olhar para si e se admirar. Ou ainda, não sabia da importância de estimular alguém a olhar para si... E embora tenha doído muito, hoje você pode reconhecer esta dor de forma adulta e buscar recursos para lidar com as ausências do passado.

Você pode interromper este ciclo, pode começar a se apropriar mais dos dias, horas, minutos que existem a sua disposição. Pode se permitir construir experiências que combinam com a sua identidade, pode se lançar para novas possibilidades e sim, se lhe for oportuno, também compartilhar nas redes sociais a sua felicidade.
O mundo não é só para os outros, o mundo é para você também.

Não fez mais que a sua obrigação?


Eu poderia sintetizar este texto utilizando a metáfora do copo: há pessoas que o vêem meio cheio, outras, meio vazio. O que muda não é objeto observado, mas sim a forma como se observa.
É duvidoso pensar que alguém goste de ser pessimista, que obtenha prazer e até mesmo qualidade de vida vendo a vida sob a ótica da negatividade, do menos, da escassez. É interessante porque atualmente os livros de autoajuda são os mais vendidos no mercado, mas são também aqueles que após lidos geralmente vão parar em uma gaveta e ficam completamente esquecidos. Não é porque eles não oferecem bons conteúdos, mas é porque eles funcionam para quem já tem a tendência em olhar a vida pelo prisma do otimismo. Quem desconhece esse jeito de viver poderá até se esforçar para seguir as tarefas que os livros sugerem, mas terão que lutar contra seus monstros internos que os pede constantemente para continuar vendo o copo meio vazio.
As pessoas que trazem este olhar pesado e até mesmo preto e branco sobre a vida possuem um caso íntimo com o perfeccionismo. Qual a relação? Quanto mais metódicas e exigentes consigo, maior a tendência em verem defeitos em si e no mundo.
Geralmente elas só se darão conta do quão doloroso é o próprio funcionamento quando receberem críticas: "Você é uma pessoa amarga", "...ranzinza, amargurada", "...está sempre de cara fechada, insatisfeita, emburrada". E também quando se compararem a outras pessoas que demonstram maior flexibilidade e gratidão para com a vida, aí se questionarão: "o que há de errado comigo?"
Como aprenderam desde muito cedo a serem perfeitas, acreditam que a busca pela perfeição é o único jeito de viver. Porém não se dão conta que o problema não está nas imperfeições que a vida apresenta, mas sim na busca delas por este ideal.
É interessante porque a sociedade capitalista reforça este padrão de perfeição, e contraditório porque esta mesma sociedade cultua através da arte, lugares e personagens aquilo que foge do padrão. A Torre de Pisa é um exemplo, milhares de pessoas visitam anualmente a torre torta na Itália para vê-la, tirar foto com ela; não muito longe temos em Gramado - RS, a famosa Rua torta que atrai centenas de turistas diariamente. Lady Gaga também representa este ponto fora da curva, uma cantora que faz do seu corpo uma tela para aquilo que quer representar rejeitando os padrões estereotipados para a sua profissão. Ou seja, parece que nós precisamos cultuar o que é imperfeito para mantermos a ilusão de que somos perfeitos.
As consequências disso são dolorosas do ponto de vista emocional: não reconhecemos os nossos limites, nos frustramos com muita facilidade, resistimos a mudanças, rejeitamos as adaptações, ficamos irritadiços quando algo não dá certo como idealizamos, não desenvolvemos resiliência, nos tornamos pessoas "emburradas".
E é necessário se dar conta dos prejuízos individuais que a ação de ver o copo meio vazio traz, é preciso identificar a dor da própria imperfeição para aprender a lidar com ela.
Então eu te lanço alguns desafios de autoconhecimento:
·         se olhe no espelho e perceba como você costuma se enxergar (com críticas ou com elogios);
·         reflita: quando você não consegue conquistar algo que quer, o que passa pela sua mente a seu respeito?
·         quando alguém próximo te presenteia, você se sente grato por isso ou acha que a pessoa não fez que a obrigação dela?

A psicoterapia provoca questionamentos fundamentais para que a tomada de consciência ocorra, mas sobretudo, ela oferece suporte para que o indivíduo faça contato com a dor de nunca ter sido considerado bom o suficiente. É através deste processo interno que a mudança real ocorre. Procure um psicólogo.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Você aproveita o que já conquistou ou vive buscando aquilo que não tem?


Quem nunca deixou de ver o que estava diante dos próprios olhos justamente porque estes estavam voltados para o que era distante?
Você já se perguntou quantas oportunidades bonitas passaram e passam diante de você mas que não são percebidas ou valorizadas porque você está almejando aquilo que ainda não tem ou que não pode ter? Parece que às vezes queremos o impossível, né?! O que está acessível, ali, bem ao nosso alcance não agrada, não brilha os olhos, não traz frio na barriga. Bom mesmo é se desafiar, é provar pra si mesmo que se tem o controle sobre o que se quer... Mas, será mesmo? Será que esta é a única forma de se obter satisfação?
Ás vezes aprendemos que a vida é uma eterna busca e que pra vivermos temos que buscar constantemente algo para nos preencher. Isto até pode ter feito sentido em algum momento de extrema necessidade em que não parar de lutar era primordial para a manutenção da vida, mas será que hoje ainda faz sentido dentro da sua história de vida?
Algumas pessoas relatam que não aprenderam a descansar, que só sabem viver quando tudo está um caos, afinal, foi através disso que se construíram. Pode parecer fácil, mas não é: algumas pessoas precisam aprender a descansar e usufruir do que já conquistaram. A tensão corporal é uma companheira permanente dessas pessoas, a ansiedade as visita constantemente e a insatisfação é quem abre as portas da casa para esta turminha emocional.
Cabe então refletirmos e nos questionarmos: até quando vamos romantizar o esforço que fazemos e principalmente a dor que sentimos enquanto lutamos para conquistar algo? Os esforços são necessários quando se está diante de algo vital ou que traz importante significado para a nossa vida, mas quando eles se tratam apenas de provar para si e para o outro que se é capaz, quando eles representam dificuldade de lidar com frustrações e falta de controle, aí precisam ser repensados e deixados de lado. Nestes momentos é que vale a pena olhar para o lado e ver o que já se conquistou e o que se pode fazer com isso.
Perceba que talvez neste momento a pessoa que está te dando um colo não tem os olhos da cor que você idealizou, não fala docemente, não tem todos os “dotes” que você aprendeu a valorizar; mas ela está aí e, por mais que não se encaixe no seu desejo de amor conjugal, pode te oferecer o colo que é o que tanto você busca naquela pessoa que simplesmente não está nem aí pra você.
Pra que então pegar o telefone nas mãos e visualizar de hora em hora na busca de um sinal de um outro alguém se neste momento tem alguém aí ao seu lado para conversar, te ouvir, te dizer? Usufrua do que é seu por direito, por mérito, por você existir, e avalie se você está aproveitando as oportunidades a seu favor. Aprenda a viver com o que você tem, se permita usufruir daquilo que você conquistou simplesmente por existir.

domingo, 25 de novembro de 2018

Inadequação: a dor de não fazer parte


Sabemos que nós seres humanos somos diferentes um dos outros e que aquilo que cabe para o outro não precisa necessariamente caber para nós. Isso vale para roupas, sapatos, pessoas, lugares... Mas apesar de sabermos disso, você já percebeu que ainda em alguns momentos insistimos em pertencer a um lugar que não combina com a gente? Bem, geralmente nem nos damos conta disso e é aí que o sofrimento psíquico começa a acontecer.
É que embora compreendamos racionalmente esta lógica da vida, nossos sentimentos não conseguem acessar este conteúdo racional. É necessário então falar com estes sentimentos numa linguagem compatível com eles. A razão pede realidade, os sentimentos pedem elaboração.
Cada experiência de exclusão, rejeição, humilhação, inadequação, pode intensificar crenças internas a respeito de si e da vida. Se o outro está rodeado de amigos e eu estou sozinha é porque ele é uma ótima companhia e eu não. Se a maior parte do meu círculo social se diverte em festas e eu em casa assistindo filme, logo me sinto inadequada e com isso intensifico alguma crença negativa a meu respeito e acabo enaltecendo os outros. Estes sentimentos tem origem no decorrer da infância e são oferecidos à criança através das suas primeiras relações.
Quando as diferenças são classificadas entre certo e errado, boas ou más, surge a baixa autoestima que acaba exigindo que nos adaptemos àquilo que o outro vive, afinal, é ele quem nos classificou como ruim, logo, ele é que é bom. Com o tempo não precisamos mais que alguém nos classifique, nós mesmos internalizamos o nosso rótulo negativo e passamos  a nos orientar através dele.
Às vezes por termos uma rígida obstinação nem percebemos que o lugar ou as pessoas não combinam com quem somos, e é aí que o corpo vai dando sinais para sairmos daquele espaço: o desânimo aparece, as pernas quase ganham vida própria de tanto que se debatem, o coração acelera, ficamos ofegantes e impacientes. Porém nem sempre a mente entende estes recados, e por ver que todos estão confortáveis ali, exigimos o mesmo de nós, afinal, quem deve estar com algum problema sou eu já que todos estão felizes.
O problema não está somente na tentativa de pertencer, mas nos sentimentos que a não concretização deste desejo suscita e nas crenças que estes sentimentos reforçam e que por fim acabam orientando uma vida.
Quando as dores da inadequação surgem cabe conversar com os próprios sentimentos, perguntar à eles o que precisam para cessarem. As respostas podem variar mas a base de cada uma delas será: pertencer. É neste momento que é necessário ir ao encontro daquele lugar que é seu, que tem a sua essência, que te toca e te traz conforto e confiança. Este pertencimento pode ter qualquer nome, pode ser uma pessoa ou um lugar, pode ser só ou com alguém, mas é neste lugar que a sua identidade precisa ser resgatada.
A sensação de ser inadequado ou estranho pode ser resultado de você não combinar com o ambiente em que está tentando se inserir, de você estar se forçando a ser alguém que não é. O resultado não tem como ser diferente, não tem como desenvolver intimidade com algo com o qual não se identifica. Então faça as pazes com o seu eu, aprenda a ver as diferenças como singularidades e não como polaridades entre bom e mal. Construa o seu próprio lugar e assim não precisará caber em todo e qualquer ambiente.
Está tudo bem em não gostar de tudo e em não se identificar com o que é considerado "bom", há vários outros espaços bons que combinam mais com a pessoa que você é. Descubra quais são eles e se aproprie do que te toca.