quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Descansar ou desistir? Escolhas para um novo ano

O final do ano traz consigo a proposta de deixar para trás os incômodos do ano que passou, e construir novas alegrias no ano que se aproxima. Nesta época do ano existe uma ideia de que todos os problemas ficarão para trás assim que os ponteiros do relógio passarem da meia noite. É como se a partir do início do novo ano os problemas automaticamente sumissem, como se falássemos: "Deixa pra lá", e os problemas passassem então a não influenciar mais os nossos comportamento e os nossos sentimentos durante todo o novo ano. Esta ideia pode funcionar para as pessoas que realmente precisam de um motivo para finalizarem ciclos pois, desta forma justificam as suas escolhas - o fim de determinadas situações - baseadas em uma crença universal de que ano novo implica em comportamentos novos. Essa crença pode ser muito positiva porque pode impulsionar a tomada de decisões, porém pode mascarar o medo de enfrentar a responsabilidade pessoal na origem de determinados problemas.
Assim, é importante compreendermos que quando nos machucamos, não curamos a ferida pedindo para que ela pare de doer porque é ano novo. E que nesse caso a ferida continuará doendo apesar do ano ter passado, mesmo que num primeiro momento ela esteja dormente devido ao anestésico da "promessa de  ano novo". 
Situações como esta são um exemplo de como algumas pessoas funcionam:
·         Buscam justificativas externas para suas tomadas de decisões,
·         Quando sentem-se cansadas imaginam um contexto mais prazeroso e desistem de compreender o porque do seu cansaço, e deste modo, não refletem sobre as possibilidades de descansarem ao invés de iniciarem um novo ano na ilusão de fazerem diferente, e inconscientemente reproduzirem os mesmos comportamentos.

Por isso é tão importante ter discernimento e cautela para não se tornar um indivíduo compulsivo por motivos para "deixar pra lá", e que desistem de enfrentar as adversidades preferindo buscar novas alegrias.

Quando surge o questionamento sobre: Descansar ou desistir, algumas pessoas consideram que a resposta para essa pergunta corresponde em avaliar a importância de tal situação na vida da pessoa. Ou seja, partindo desse pressuposto, quando desistimos de algo é porque aquilo não era realmente importante para nós, e quando descansamos de um estresse mas retomamos o fôlego significa que agimos deste modo porque consideramos que aquilo é realmente importante para nós.
Essa resposta seria correta caso não nos boicotássemos tanto diante das nossas escolhas. Não somos tão práticos e previsíveis assim, o ser humano é extremamente complexo e para evitar sofrer desenvolve mecanismos inconscientes que o boicotam e o conduzem a uma escolha que a princípio é menos dolorosa. Nenhum conflito é solucionado sem a elaboração deste, ou seja, mesmo que se busque novas alegrias, enquanto o comportamento antigo que contribuiu para a origem do problema não for aceita, compreendida e transformada, as novas alegrias se contaminarão pelos velhos comportamentos, se transformando assim em um circulo vicioso.

Talvez, no último dia do ano, ao invés de descartarmos os problemas do ano que está acabando, buscássemos compreender o porque deles terem acontecido, rever o que está nos  levando a desistir de cada um deles - compreendendo que quando desistimos de algo porque consideramos ruim ou negativo para nós, desistimos também de transformar este ruim em algo bom, abdicamos da nossa capacidade de te resiliência e de aprender a enfrentar algumas batalhas. Não precisamos ganhar todas as batalhas, mas podemos reconhecer quais valem a pena se lutar para não sermos vencidos por elas mais adiante.

Lembre-se: A gente só consegue "deixar pra lá" quando compreende a responsabilidade pessoal na origem do problema, exceto isso, é como se esperasse que o problema desaparecesse porque o ano novo está se aproximando. Portanto, antes de desistir, reflita se você já descansou o suficiente. E saiba que: "Tudo aquilo que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos mais adiante e chamaremos de destino" (Jung). Pense nisso!


Como diminuir a minha insegurança?



Existe uma queixa que surge com frequência dentro de um setting terapêutico: a insegurança. Nem sempre a queixa é revelada de forma consciente, algumas pessoas por estarem focadas nas consequências originadas pela insegurança, não identificam que foi ela quem possibilitou toda a situação conflituosa. Assim, não percebem que a situação em que se encontram é consequência da falta de segurança que tem sobre si. E desta forma trazem através das suas histórias particulares contextos de dependência afetiva, submissão, rigidez consigo e para com os demais...
A insegurança está relacionada diretamente à necessidade de receber amor e aprovação externas uma vez que o indivíduo não se sente capaz de receber o amor por quem ele é devido a crenças negativas estruturadas ainda na infância. Essa insegurança pode ser observada em alguns contextos, como:
·        Necessidade de se afirmar perante os demais: "Eu estou sempre certo!"
·        Comportamentos que demonstram carência afetiva, necessidade de receber carinho constantemente e dificuldade de tolerar e compreender as necessidades do outro.
·        Cobrança pessoal: "Eu não posso errar nunca!", "Tenho que ser muito bom!".
·        Aceitação de relacionamentos abusivos onde o indivíduo por não ter segurança com aquilo que gosta e quer, acaba aceitando as imposições alheias e se submetendo.
Então, como desenvolvemos a segurança pessoal?
A segurança sobre si corresponde na defesa dos próprios princípios, no respeito consigo, na tomada de decisões com maior assertividade, na compreensão dos próprios limites... Para desenvolvermos a segurança precisamos necessariamente conhecer como funcionamos, o que sentimos em situações específicas, quais os nossos conflitos internos, nossas fragilidades, nossas defesas e nossas fugas. Quando compreendemos esses fatores, automaticamente conseguimos nos administrar melhor diante de situações conflituosas. Mas, quando não nos conhecemos, acabamos negando quem somos e é assim que investimos em relacionamentos que não são saudáveis ou que não se sustentam, nos engajamos em projetos que ultrapassam os nossos limites, fazemos escolhas que são opostas ao que podemos oferecer genuinamente. E a consequência da falta de autoconhecimento é sem dúvidas um sofrimento que engloba: tristeza, raiva, mágoa, incompreensão, doenças...
Por isso é fundamental investir em si: cuidar da saúde física e psíquica, fazer psicoterapia para desenvolver o autoconhecimento, aprender a dizer "não" sem se culpar ou se punir por isso, identificar o que gosta de fazer, o que aceita do outro, quais os próprios limites, os próprios princípios...

Lembre-se que a segurança pessoal está relacionada ao quanto você se conhece, e que é através do autoconhecimento que você poderá modificar as crenças que o fazem se sentir inseguro e ou incapaz. Assim você perceberá que a necessidade de receber o amor do outro pode ser suprida de forma fiel à quem você é, e que o desejo de ser reconhecido diminuirá conforme você for se sentindo feliz com as suas próprias escolhas. Quando aumentamos a nossa segurança sobre quem somos, automaticamente diminuímos a necessidade de agradar os demais. Portanto saiba que um caminho seguro para a segurança pessoal é aquele trilhado com amor próprio.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Amor ou paixão?

Os relacionamentos iniciam com o despertar da paixão. A paixão ocorre de forma inconsciente, e é por isso que falamos que “não mandamos no coração” pois não temos controle sobre os nossos processos inconscientes. Por desconhecermos o nosso próprio funcionamento, não conseguimos controlar por quem iremos nos apaixonar. Exemplo: Um homem que se apaixonou pelas características de uma determinada mulher sem compreender que se apaixonara por ela devido ao seu desejo inconsciente de ter essas mesmas características para si devido a necessidade de agradar aos pais e receber a aprovação deles…
A paixão tem como característica enxergar no outro aquilo que considera-se importante para si e esse conceito de “importante” é uma consequência das crenças pessoais que cada indivíduo possui (agradar aos pais, mostrar que consegue, que é bom…). Sabemos que são inúmeros e extremamente singulares os critérios que fazem um indivíduo se apaixonar pelo o outro, contudo, a vivência da paixão embora particular, possui características específicas e gerais.
Na paixão, que é conhecida também como amor romântico, existe uma fuga da realidade: o indivíduo acaba vendo no seu objeto de desejo (namorado (a)/esposo (a)) características que são importantes para si ou que gostaria de ter em si, supervalorizando assim o objeto de desejo e desvalorizando ou negando o seu próprio ser. É por isso que quando nos apaixonamos diminuímos o interesse pelas outras relações e áreas da nossa vida, e temos como foco principal o objeto de desejo e o relacionamento em si e quando acaba a relação pautada na paixão sofremos tanto: além das idealizações, também perdemos o contato com quem somos devido à dedicação exclusiva à relação.
Embora a paixão traga várias sensações boas e intensas, ela traz consigo também a negação da realidade e costuma ter curta duração, diferentemente do amor maduro.
No amor maduro existe um contato com a realidade, ou seja, o encantamento desaparece gradativamente a partir da convivência e o objeto de desejo é percebido como alguém que também possui falhas, que erra e que possui fragilidades, mas com quem ainda se deseja partilhar os prazeres e dividir as angústias.
Deste modo, entende-se que o amor maduro é saudável porque existe um contato com o prazer mesmo que na realidade, diferente da paixão ou do amor romântico que afastam o indivíduo da sua realidade e o aproximam da fantasia tornando todo sentimento intenso. Isso não significa que no amor não existam prazeres ou sentimentos positivos, eles existem com certeza, porém são mais brandos e reais, são maduros.
É comum que algumas pessoas, ao perceberem que o encantamento pelo o outro está acabando, saiam do relacionamento. Isso ocorre porque para elas é doloroso enxergar a realidade e aceita-la, e porque também desejam viver constantemente picos de euforia e intensidade mesmo reconhecendo que a paixão não é eterna.
Mas, quando o indivíduo consegue perceber a realidade do outro e desenvolver empatia, avaliar a importância deste relacionamento para a sua vida e os ganhos obtidos através desta relação, então, automaticamente ele assume o compromisso com o amor maduro. Este, mais brando, seguro e duradouro e que precisa ser fortalecido com a empatia e amor próprio para que não altere a sua propriedade saudável de liberdade.
Logo, entende-se que para viver um relacionamento maduro é necessário que os indivíduos envolvidos nele também possuam maturidade emocional para compreenderem a realidade e aceita-la, e para apoiarem-se sozinhos e poderem expressar os seus sentimentos livremente, sem serem ou se sentirem punidos por isso. Esta maturidade emocional é conquistada através do autoconhecimento: identificação, aceitação e elaboração dos próprios medos, fragilidades, inseguranças…
Sabe-se que o amor é sentido de acordo com cada estrutura de personalidade, isso porque a personalidade é construída de acordo como foram vivenciadas as etapas  de desenvolvimento infantil. É a forma como essas etapas foram satisfeitas  e a qualidade dessas satisfações que irão refletir no modo como o adulto irá se relacionar.
É importante salientar então que a forma como fomos nutridos afetivamente na infância irá refletir nas nossas relações quando adultos. O medo de não ser amado, de não receber o suficiente, de ser enganado, o desejo de querer sempre mais afeto, acabam norteando a forma do indivíduo se relacionar com o outro. É por isso que nas relações nos deparamos com medos, com inseguranças, com necessidades infantis… Se indivíduos imaturos emocionalmente se depararem com esses sentimentos na paixão, provavelmente sairão da relação. Mas, se esses indivíduos forem maduros emocionalmente, mesmo que na paixão conseguirão compreender o outro e avaliar se estão dispostos a investir numa relação mais sólida e adulta, ajudando-se mutuamente.
Portanto, não é a etapa da relação que irá definir o destino do casal, mas sim a maturidade emocional dos indivíduos envolvidos nesta relação é que determinará a próxima etapa a ser vivida na relação.
Perceba como você reconhece e lida com os seus conflitos e como seu/sua parceiro (a) também o faz. Através desta análise você identificará se está vivenciando uma paixão ou um amor maduro e compreenderá também como quer conduzir a relação.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Traição: perdoar ou não?


A infidelidade é sem dúvidas um medo frequente nos relacionamentos. Quando falamos de traição automaticamente associamos aos relacionamentos conjugais, contudo ela não acontece somente neste tipo de relação. A traição corresponde ao ato de enganar o outro: a mentira é geralmente a ação utilizada por aquele que trai. E ela é encontrada em amizades, em relações de trabalho, no convívio familiar…

MAS POR QUE UMA PESSOA TRAI?

Cada indivíduo é único e possui sua história de vida particular: seus conflitos, suas dores, seus medos. Generalizar o motivo da infidelidade é desconsiderar a história particular que cada pessoa possui. Contudo, a partir de uma análise psicológica com enfoque psicanalítico, sabe-se que a infidelidade pode ter sua origem na infância. S
im, isso acontece quando a relação dos pais com a criança passa a ser permeada por ações que apresentam a perda do amor ou da confiança, podendo ocorrer inclusive abusos diretos ou indiretos na sexualidade infantil, passando a criança a vivenciar a experiência da traição. Tais experiências poderão ser reproduzidas ou apresentar reflexos na vida adulta.
Dependendo da fase do desenvolvimento em que ocorreu a experiência de traição, geram-se traços de caráter predominantes, e quando adulto, o indivíduo poderá ter uma fixação com relação à traição, vivenciando relacionamentos em que desempenha o papel de traído ou de traidor.
Alguns gatilhos contribuem para acessar esses conflitos internos e desencadear a reprodução do comportamento vivido na infância:
  • Insatisfação pessoal: A busca por vários relacionamentos ao mesmo tempo pode indicar a presença de um ego frágil, que para não entrar em contato com a sua fragilidade, desenvolve máscaras psicológicas: “o sedutor”, “o disputado”, “o descomprometido”.
  • Insatisfação conjugal: Quando a relação se desgasta (brigas, desrespeito mútuo, cobranças, imaturidade), pode contribuir para que ocorra a infidelidade. As vezes, também ocorre uma tomada de consciência de uma submissão na relação fazendo com que a parte submetida busque a sua liberdade através da traição como uma forma de dizer: “Chega!”.
  • Medo de envolvimento: O medo do abandono faz com que algumas pessoas busquem várias relações superficiais e ao mesmo tempo, isso ocorre devido ao desejo de se sentirem satisfeitas mas sem correrem o risco de se envolverem e perderem o seu objeto de amor.
  • Separação entre sexo e amor: Alguns indivíduos acreditam que sexo e amor fazem parte de categorias distintas, e que logo, um é independente do outro. Desta forma, ao buscarem relações sexuais extra conjugais, sem envolvimento afetivo afirmam que somente o corpo buscou satisfação, mas que os sentimentos permaneceram vinculados à pessoa “amada”.

É POSSÍVEL PERDOAR?

O perdão na psicologia possui como sinônimo a palavra empatia. Para perdoarmos alguém pelo dano causado à nós é necessário que desenvolvamos a capacidade de compreender as limitações do outro que o levaram ao ato que nos prejudicou. Quando nos sentimentos injustiçados, desrespeitados, humilhados e traídos, automaticamente fazemos contato com todas as outras vezes em que nos sentimos assim. Dessa forma o acúmulo desses sentimentos acaba gerando mágoa e supervalorizando ainda mais a situação traumática.
Porém, enquanto permanecemos com o sentimento de mágoa, desenvolveremos o papel de vítimas, e pode não parecer, mas esse papel traz vários ganhos secundários, o que nos faz mantê-los. Portanto, para perdoarmos alguém precisamos abdicar dos ganhos secundários que o papel de vítima traz e nos colocarmos no lugar do outro. Isso somente será  possível quando a raiva e todo o ressentimento forem expressados.
A partir disso passamos a enxergar o outro como alguém que possui limitações e que erra (assim como nós), e deste modo verificarmos se estamos dispostos a dar outra oportunidade para a relação, ou se preferimos investir em uma outra escolha.
Saiba que você tem todo o direito de sentir as dores da infidelidade, porém, perceba se você está se fixando nessas dores ou se está disposto a dar significado para o que sente e transformar-se positivamente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Você sabia que a idealização constitui uma fuga da realidade? Sim, inclusive em alguns casos isso ocorre porque a pessoa tem dificuldades de compreender e de se adaptar à sua situação atual, e assim se remete ao passado para lembrar das idealizações que fizera. Assim, cria justificativas para "permanecer lá atrás", e fugir da sua real situação, ou seja, do presente. ⚠Somado à isso, quando estamos apaixonados idealizamos também o nosso objeto de desejo, e mais uma vez negamos a realidade.

⚠Um fator importante também é a autoestima de quem se submeteu à relação. Devido ás vezes, a crenças e sentimentos negativos sobre si, a pessoa passa a aceitar qualquer forma de "amar" do outro. Assim não se valoriza e sofre pelo pouco que o outro lhe dava e não pelo fato de se submeter (até porque a pessoa dificilmente enxerga isso no momento devido as lentes escuras da dor que vive). 


As relações abusivas são definitivamente prejudiciais, causam grandes danos a nível emocional, comportamental, físico, mental. Portanto, para se evitar entrar em relações com este formato, é essencial desenvolver o AUTOCONHECIMENTO para poder identificar:  

  • QUEM SOU,
  • O QUE QUERO,
  • O QUE PRECISO. 
E a partir disso desenvolver uma AUTO ESTIMA positiva, que possibilite a busca para satisfazer as suas necessidades, preferências e desejos. 


>>>Portanto, perceba que amor você está aceitando receber e se ele é condizente com o amor que você sente por si mesmo (a).<<<

Meu relacionamento acabou, e agora?


Jéssica Horácio de Souza
Psicóloga CRP 12/14394
Psicoterapeuta Corporal


"Eu quero que você me ajude a esquecê-lo", "Eu só queria apagá-la da minha mente", "Por que ela fez isso comigo?", "Eu só queria saber como ele está"... Essas e outras frases são comuns no processo de rompimento de uma relação. Algumas pessoas inclusive relatam a dor da perda como uma dor física, sentem uma tristeza tão profunda que acabam tendo sensações corporais como falta de ar, dores no peito, distúrbios no sono, queda da imunidade, falta de apetite...
O sofrimento causado pelo rompimento de uma relação é particular, cada indivíduo experimenta a dor da perda de uma forma. Porém, algumas características são específicas do luto. Sim, cada perda - independente de envolver morte ou não - envolve a elaboração do luto. Fazem parte deste processo as seguintes etapas:
·        Negação: "Eu estou bem!"
·        Raiva: "Não é justo!"
·        Negociação: "Eu faria qualquer coisa..."
·        Depressão: "Eu estou tão triste/Minha vida acabou"
·        Aceitação: "Era pra ser/Tudo dará certo!".
Deste modo, o luto corresponde a um processo natural de vivência da perda, neste processo o indivíduo fica tão focado na sua dor que não consegue observar a realidade a sua volta, reforçando como consequência o seu estado de tristeza.
Algumas pessoas, ao finalizarem um relacionamento tem dificuldade de se desprenderem do seu objeto de amor e com isso ficam revivendo o passado, buscando justificativas para o término, enaltecendo o (a) parceiro (a) com quem se envolveu, tentando se manter conectadas a qualquer resquício do que construíram embora isso não exista mais.
Quando a perda não é elaborada, ou seja, quando os motivos reais do sofrimento não são compreendidos, a tendência é que o indivíduo permaneça fixado na dor, não dando atenção às outras áreas da sua vida. Com isso sofre também pela dificuldade de se adaptar a sua nova rotina. Uma vez que está fixado na dor do término, não consegue reconstruir a sua vida. Através da negação da realidade, podem viver na espera de uma reconciliação, ou também, idealizar o que viveram como um modo de fugir do fim do relacionamento.
Contudo, a fuga da realidade não auxilia na remissão do sofrimento. Embora seja doloroso, o luto precisa ser vivenciado pois é ele que fará com que o indivíduo enfrente a sua dor, possibilitando posteriormente a aceitação da realidade na qual se encontra. Não existe uma duração específica para a vivência das etapas do luto. Algumas pessoas vivenciam várias fases/etapas concomitantes, outras permanecem fixadas durante muito tempo em uma determinada fase, outras conseguem elaborar o sofrimento com maior facilidade. Tudo isso dependerá do vínculo afetivo desenvolvido na relação que terminou, nas crenças que o indivíduo possui, na forma como ele se percebe no mundo, sua história de vida, seus conflitos internos...
Porém, é de extrema importância reconhecer se o sofrimento está influenciando negativamente em outras áreas da vida do indivíduo, se ele é persistente e se está contribuindo para o desenvolvimento de quadros patológicos. De todo modo, é fundamental buscar auxílio psicológico para lidar com os conteúdos que trazem sofrimento e para ser orientado e acompanhado diante das fases oriundas deste processo doloroso.
A partir disso será possível obter aprendizados com a relação que terminou, bem como tornar-se responsável também pela relação, e,  identificar comportamentos negativos para assim evitar reproduzi-los nos relacionamentos futuros. Contudo, para chegar a este estágio é necessário fazer contato com o sofrimento: chorar quando sentir vontade, não mascarar a dor, conversar com alguém a respeito dos próprios questionamentos.
Lembre-se: A dor se torna maior quando negamos a sua existência. Para ser elaborada ela precisa ser sentida. Não é um processo fácil, mas sem dúvidas é o caminho mais eficaz para a remissão do sofrimento e para a reconstrução pessoal.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Insatisfação no relacionamento: o que fazer?

Sabe-se que toda relação – seja ela familiar, conjugal ou de amizade – exige o desenvolvimento de algumas habilidades para que se torne saudável e ou, com menos conflitos possível.  Essas habilidades correspondem a respeito, empatia, dedicação… Porém precisam ocorrer de ambas as partes para que exista uma coesão entre os objetivos na relação, caso contrário, surgirá uma frustração naquele que investiu mas que não obteve os resultados que esperava.
Somos movidos através dos resultados que vislumbramos, logo, temos a necessidade de obter resultados logo que investimos em algo. E com as relações não é diferente: se investimos dedicação desejamos receber esta mesma dedicação. Se investimos carinho, desejamos que a outra parte da relação também seja carinhosa conosco.
Contudo,  devido as expectativas criadas em torno da relação e do outro, ás vezes o que se recebe não é compatível com o que se espera, originando desta forma um sentimento de desvalorização naquele que se dedicou e tentou se modificar para a melhora do relacionamento. A pessoa que aposta na relação e que não obtém os resultados que espera acaba se frustrando e diminuindo o seu investimento, e ou, concomitantemente, desenvolvendo um sentimento de raiva para com o outro, gerando como consequência uma sucessão de comportamentos negativos para ambos e para a relação num geral.
Algumas pessoas inclusive, desenvolvem o sentimento de culpa porque acreditam que não foram boas o suficiente, pois se fossem, o parceiro teria mudado para ficar com elas. Outras sentem muita raiva e justificam o seu estado irritadiço como sendo culpa do parceiro, o desvalorizando e o culpando pelo fim do relacionamento, ficando assim na posição de vítimas.
A consequência disso é um desgaste que ocorre tanto na pessoa que está investindo na mudança da relação, como no próprio relacionamento que perde as trocas e se transforma em um treinamento sem resultados positivos, e também no parceiro que não é aceito como ele é e que se sente “o vilão” na relação.
O que ambas as situações tem em comum é a falta de empatia, ou seja, a dificuldade de perceber/questionar se o (a) parceiro (a) quer ou não modificar os seus comportamentos em prol da relação. Quando agimos pelo o outro, sem questioná-lo, negamos a sua contribuição para a relação e tentamos enquadra-lo naquilo que acreditamos ser o melhor. Porém, nesta situação cabe o questionamento: “Melhor para quem?”.
É importante compreender que nossos atos são orientados pela motivação que temos em executá-los, ou seja, precisamos de um motivo – um ganho – para a ação. Se não visualizamos estes ganhos, como consequência, não agimos em prol de uma mudança.
Em determinadas situações a mudança de comportamento do cônjuge é importante para o bom convívio, contudo, é fundamental identificar se o desejo de que o outro mude corresponde a uma avaliação de que realmente esta mudança será positiva para ambos, ou se será benéfica apenas para si. Portanto, ao identificar algo disfuncional na relação, antes de propor alguma mudança se questione a respeito das suas intenções.
Por isso, se você percebe que o seu relacionamento precisa de alguns ajustes, perceba de que modo você comunicou ao (a) parceiro (a) sobre as suas insatisfações. E se você sentir que o seu investimento não está sendo reconhecido da forma que você gostaria que fosse, identifique se suas expectativas estão dentro da realidade, ou se você está esperando mais do que o (a) parceiro (a) pode / está disposto a investir.
A partir disso, reflita se você compreende os comportamentos dele (a), e se continuará disposto (a) a permanecer na relação caso a outra parte envolvida se encontre limitada em se modificar no momento. Através desses questionamentos surgirão as respostas a respeito da sua disponibilidade de querer ou não investir no relacionamento, porém com maior clareza sobre as suas expectativas, às limitações e aos desejos alheios.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Você ama o que faz?

Você já analisou qual sentimento você
tem por aquilo que faz?
Se esta questão já surgiu na sua vida, provavelmente ocorreu em um momento de indecisão sobre o seu envolvimento afetivo pelo o que fazia.

A rotina inalterada contribui para o automatismo, assim temos a tendência de "seguir a massa", e executar as atividades rotineiras. Desta forma, dificilmente desenvolvemos o hábito de identificar se gostamos ou não do que fazemos. É comum aliás, que este questionamento surja quando algo que até então estava confortável, começa a incomodar, ou quando algo foge do nosso controle, ou ainda, quando temos contato com algo que nos dá mais satisfação do que aquilo que vínhamos executando.

>>>Algumas pessoas inclusive, possuem crenças generalistas a respeito do que é "bom" para si. Acreditam que se o outro tem ou teve prazer fazendo determinada atividade e cursando uma faculdade específica, por exemplo, logo, para ele também será bom seguir este mesmo script. E estas crenças resultam em um sentimento de inadequação e de insuficiência, em que o indivíduo culpa a si mesmo por não gostar daquilo que o outro gosta, reforçando deste modo uma postura passiva e negativa diante da vida.<<<

Sartre nos diz que quando escolhemos um mundo para nós, automaticamente escolhemos este mesmo mundo para o outro. Ou seja, quando fazemos uma escolha pessoal, julgamos que o outro deveria também a escolher. Esse sistema é muito presente nas relações familiares, onde os pais projetam as suas expectativas pessoais nos filhos, e não fazem distinção entre eles, desejam apenas que os filhos sigam aquilo que eles- os pais consideram "bom" para eles - os filhos.

Porém, o que talvez se desconheça são os prejuízos que a reprodução de crenças familiares negativas e generalistas causam. Pessoas que possuem uma estrutura de ego frágil, que acreditam que para receberem amor precisam se submeter às vontades alheias, que pensam que para não perderem a admiração dos pais ou para não decepcioná-los precisam executar tudo aquilo que eles pedem, possuem a tendência de não se questionarem sobre o que gostam ou não gostam. Como se acostumaram a cumprir as expectativas alheias, não se permitem se questionar. E não se questionam também porque temem encontrar em si sentimentos contrários àqueles esperados para si, e com isso entrar em conflito com o que: "Eu quero" e o que "Eu devo" fazer.


Como podemos identificar se gostamos ou não do que fazemos?
*O primeiro passo é nos questionarmos: Por que estou executando tal atividade? - Através desta pergunta conseguimos entrar em contato com a realidade -  o aqui e agora - e então avaliarmos os motivos de estarmos trabalhando neste emprego/ fazendo esta faculdade...
*Após identificarmos o motivo de estar onde nos encontramos, então precisamos compreender a origem desses motivos (repetição familiar, cumprimento das expectativas alheias, manutenção de status social...).
*Através destas etapas conseguimos reconhecer em nós mesmos os sentimentos que sustentam a nossa ação de estar/permanecer onde estamos, para então avaliar qual poder vamos dar à esses sentimentos, ou seja: se vamos valorizar o nosso querer ou se daremos valor às crenças e expectativas alheias.

É importante saber que quando conseguimos identificar os  sentimentos pelo o que fazemos, estamos automaticamente em contato com os nossos próprios desejos, independente da resposta que vamos encontrar: "Sim, eu gosto!", ou: "Não, eu não gosto!". A partir dessa identificação pessoal desenvolvemos o autoconhecimento, este que é a base para qualquer escolha assertiva e saudável. Portanto, lembre-se: Você está onde você se coloca. Caso você esteja com dificuldades de identificar os seus sentimentos por aquilo em que está envolvido, perceba os sinais que seu corpo lhe dá ao executar as atividades. Quando paramos para analisar a forma como executamos as tarefas rotineiras, percebemos como o nosso estado de humor fica nestes momentos, e assim, reconhecemos o sentimento por trás dele.





segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Adultos mimados?

Na prática clínica, se observa com frequência, a crescente dificuldade das pessoas lidarem com o adiamento do seu prazer, ou, em terem que abdicar deles em situações específicas.
Esse fato é constatado a partir de falas que revelam a crença individual de que “se não é como eu quero então não me serve”, e que geralmente são acompanhadas de sentimentos de raiva e tristeza, e de comportamentos ora de indignação, ora de desprezo com aquilo que não corresponde ao que se queria.
Estes comportamentos podem ocorrer de forma velada, onde o indivíduo acaba não percebendo que está escolhendo a sua vida a partir de um critério rígido de prazer devido o desejo de vivenciar uma euforia constante. Ás vezes se revela através de um conflito sutil na relação, onde um dos parceiros não aceita a possibilidade de abdicar de algo que quer em prol de um desejo do outro, pode se revelar também na tendência em delegar funções para alguém para evitar resolver o conflito, no consumo exagerado, no comodismo em não acordar alguns minutos mais cedo para fazer um exercício físico, em não aceitar regras, em brigar para obter o tão almejado “sim”.
Todas estas atitudes expressam a dificuldade de se lidar com limites, demarca os prejuízos trazidos pelo imediatismo, a confusão dos conceitos de amor próprio e egoísmo/individualidade e individualismo, e a dificuldade de se compreender as distinções de felicidade e euforia.
Mas por que agimos assim?
Segundo Freud, as neuroses surgem quando o indivíduo se afasta da realidade. “Os neuróticos afastam-se da realidade por achá-la insuportável – seja no todo ou em parte”. E assim vivenciam o Princípio do prazer-desprazer, onde o propósito é obter prazer constante e se afastar de tudo aquilo que cause desprazer. Quando a vida é regida pelo Princípio do prazer-desprazer, ocorre um distanciamento da realidade e por isso surge a dificuldade de lidar com o que “eu quero” e com o que “eu posso”, pois, o desejo é incompatível com o que a realidade oferece, deste modo surgem as frustrações, a irritabilidade, o descaso, a agressividade.
Então como podemos lidar com isso?
É necessário identificar o porque de se querer constantemente obter prazer, qual a origem deste desejo e quais sentimentos o amparam. A avaliação das prioridades e das consequências das escolhas também funcionam como métodos para identificar o que estamos escolhendo: obter prazer momentâneo ou conquistar uma satisfação duradoura.
Para sabermos as nossas prioridades e se estamos conscientes sobre as consequências das nossas escolhas é válido questionarmos: “O que é mais importante para mim?” Por exemplo: “acordar tarde ao invés de ir para a academia, e como consequência ter mais horas de sono e sentir o meu corpo mais cansado, ou, acordar cedo e ir para a academia e como consequência ter menos horas de sono e sentir o meu corpo mais ativo?”. Através deste questionamento conseguimos perceber que não existem somente prazeres, e que estar em contato com a realidade implica em abdicar de alguns prazeres em prol de outros.
É fundamental também desconstruir crenças negativas que fortalecem a fuga da realidade para então elaborar os sentimentos disfuncionais. A partir destas atitudes, é possível encontrar formas de alterar a realidade (dentro do que é possível) para então se obter satisfação.
Caso você perceba que não está conseguindo tolerar as frustrações, procure auxílio psicológico. Saiba que somente um ego bem estruturado é capaz de lidar com as frustrações, e que uma vida saudável consiste em encontrar o equilíbrio entre a dor e o prazer

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Será que ele (a) me ama?

"Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se." 

Inicio este artigo com a parte de uma crônica escrita por Martha Medeiros, onde a escritora sensivelmente e sem perder a coerência racional, assume que existe uma diferença entre ser informado sobre ser amado e entre sentir-se de fato amado.

É importante compreendermos primeiramente o que significa amar. O amor possui um significado amplo, cada cultura (sociedade, período histórico, educação) experimenta de uma forma particular este sentimento. E toda sociedade é construída por indivíduos que possuem sua subjetividade, seus traumas, conflitos, seus desejos, suas necessidades. Por isso o conceito de amor é tão particular, e é sentido e expresso de maneiras diferentes.

Porém há pessoas que diante de um relacionamento, não conseguem reconhecer o amor do parceiro para consigo. E se queixam constantemente de não serem amadas, de não se sentirem amadas. Com isso, desenvolvem comportamentos incompatíveis com a relação, fruto da insegurança e do sentimento de raiva e ou de frustração por não receberem o amor que tanto almejam.

Perante a insatisfação amorosa, pergunto a alguns pacientes:
>>>Como é o amor que você deseja receber?<<<

A partir da resposta verificamos juntos quais as características deste amor: se ele é real ou idealizado, se é baseado em um amor infantil, se ele é romântico, dependente, ou maduro...


  • Em algumas situações é necessário desconstruir as fantasias, para isso juntos compreendemos o porque de te-las criado e como podemos elaborar o trauma para então entrar em contato com a realidade e transforma-la (para não reproduzir novamente o ciclo irreal).
  • Também precisamos identificar o tipo de amor recebido na infância e como ele foi compreendido pela criança (algumas pessoas imaginam que o cônjuge deve desempenhar o mesmo papel do pai e da mãe...).
  • É essencial verificarmos de que modo o parceiro foi informado de que existe uma insatisfação na relação vivenciada pela outra parte (algumas pessoas esperam que o outro adivinhe o seu descontentamento ao invés de informa-lo).
  • A partir desses eixos é possível "filtrar" o sentimento de amor baseado na realidade e tomar as medidas adequadas para busca-lo (saber se o parceiro quer ajustar algumas demonstrações de afeto, se é possível fazer uma troca nas mudanças ou expressões do amor, como é possível auxiliar o parceiro caso ele não saiba como começar...).
A partir do momento que nos conhecemos melhor, conseguimos identificar o que queremos, por que queremos e o que faremos para conquistar este nosso desejo. Assim conseguimos também, expressar para o outro, de forma clara, objetiva, sensível e empática o que desejamos. Lembrando sempre que o outro pode ter o direito de não querer se ajustar à relação ou às necessidades alheias, e que diante disso poderemos escolher satisfazer essas necessidades de outra forma, reconfigura-las, nega-las... Porém, quando sabemos o que realmente queremos, automaticamente já definimos o que não queremos. A empatia (colocar-se no lugar do outro) é sempre um excelente meio para identificar as limitações alheias, diminuir expectativas e buscar no lugar certo aquilo que queremos. Por isso, ao entrar em uma relação, identifique o que você busca nela e quais as suas expectativas, e coloque para o seu parceiro essas observações.  

Lembre-se: Não é culpa da laranjeira a sua expectativa de que ela dê maracujás. Somente você tem responsabilidade pelas expectativas que cria. E uma excelente forma de diminuir as expectativas e portanto, as frustrações, é enxergando a realidade e sendo sempre sincero consigo e com o outro.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Agora eu tô solteiro e ninguém vai me segurar!

Beber até ficar "no brilho", gastar todo o salário do mês nas baladas, "pegar" o maior número de pessoas... Algum destes "programas" é familiar para você? Se a resposta for sim, talvez você faça parte do grupo de pessoas que defende com unhas e dentes o status de desapegado.

A cultura do desapego está em evidência, e podemos pensar que um dos fatores para o surgimento deste modelo cultural se deve ao radicalismo contra o romantismo. Se em um momento da história se estimulavam o relacionamento conjugal devido a este ser uma convenção social e sinal de cumprimento às regras religiosas, hoje percebemos um radicalismo em relação à evitar relacionamentos e desenvolver o individualismo. Ou seja, parece que se percebeu que é possível ir contra os papéis sociais ao negar as relações por dependência (financeira, afetiva social...), contudo, se deturpou o conceito de liberdade, transformando a individualidade em individualismo.

Percebemos esta deturpação nas mídias sociais, em que aquele que demora para responder a uma mensagem é valorizado, ao contrário daquele que se mostra sempre disponível, este é considerado "fácil" e portanto, com menos valor. Este comportamento individualista também é percebido nas relações onde um parceiro omite os seus sentimentos de amor em relação ao outro escondendo o que sente para ser percebido como desapegado. É assim que se estabelecem os jogos de poder nas relações, em que sinceridade e espontaneidade são itens totalmente dispensados, e que dão lugar à manipulação e à representação de papéis disfuncionais como garantia de que o parceiro irá continuar ali.

Por que algumas pessoas vivenciam a cultura deturpada do desapego? Podemos elencar alguns fatores:
<> Dificuldade de expressar os sentimentos (alexitimia).
<> Medo de se sentir abandonado (a) por isso evita-se relacionar-se.
<> Crenças equivocadas sobre os relacionamentos obtidas através de modelos familiares disfuncionais,
<>Dificuldade de lidar com responsabilidades e compromissos,
<> Medo de abdicar do seu "conforto",
<> Tendência em querer obter prazer a todo momento,
<> Falta de empatia.

É importante compreender que cada um destes fatores possuirá uma origem individual, ou seja, é necessário analisar a história particular de cada indivíduo para compreender os mecanismos que o levaram a se fechar para os relacionamentos e desenvolver a armadura de desapegado dos sentimentos e dos vínculos afetivos.


Quais as consequências da cultura do desapego?
*Um passo importante a ser tomado é perceber os ganhos secundários por trás do comportamento desapegado. Se a proposta do desapego é obter prazeres e viver sozinho, podemos imaginar que os ganhos da manutenção deste papel envolvem diversão e individualismo.
*Outro fator a ser observado é que por trás de toda escolha existe uma renúncia: quando escolhemos ter somente prazer, abdicamos das responsabilidades. E essas possuem um componente muito importante mas que é pouco enfatizado: o sentimento de utilidade. Quando somos responsáveis e comprometidos com algo ou com alguém, nos sentimos importantes e úteis e fazemos contato com algo que realmente nos preenche, percebemos que nos preenchemos de forma adulta e deixamos de lado a insatisfação infantil de querer a todo momento algo mais interessante ou mais prazeroso.
*Quando escolhemos viver sozinhos em prol da teoria do desapego, abdicamos dos ganhos que uma relação pode oferecer. Deixamos de conhecer alguém profundamente e estabelecemos apenas um contato superficial, nisso existe uma tendência à rotatividade de pessoas e evita-se o envolvimento. Ao nos relacionarmos visando apenas o prazer momentâneo, sabemos que existirá uma limitação. Quando o prazer for obtido, "crescerá" novamente a insatisfação e o desejo de obter prazer novamente, e quando este prazer não for conquistado, o indivíduo poderá entrar em contato com algo que ele tanto evita: o sentimento de solidão.


Como podemos afrouxar a armadura do desapegado?
*Primeiramente é necessário entrar em contato com a realidade e perceber quais prejuízos individuais a manutenção deste status tem trazido para a sua vida.
*Também é importante identificar qual a origem do desenvolvimento desta armadura: em que momento aconteceu e para protegê-lo de que.
*Concomitantemente é fundamental analisar as crenças que o limitam a se relacionar e elaborá-las afim de modificar os comportamentos causados por elas.
*Entrar em contato com os próprios sentimentos ao invés de fugir deles também é primordial para modificar os comportamentos que o aprisionam a ser um desapegado disfuncional.


O psicólogo é o profissional adequado para lhe ajudar a compreender os motivos que originaram as suas crenças, os seus sentimentos e os seus comportamentos. Ao perceber que você está fugindo das responsabilidades e dos compromissos, que tem desejado ter somente prazeres a todo momento, que você tem medo de se relacionar e ou que não consegue expressar os seus sentimentos, procure auxílio psicológico. O autoconhecimento é a solução para a desconstrução das suas armaduras.


É que homem é assim mesmo...

Hoje quero conversar sobre os estereótipos de gênero. O documentário: "The mask you live in" retrata a forma como os meninos são educados e como esta educação pautada na diferença de papéis de acordo com o gênero influencia negativamente na estruturação de personalidades.

Os papéis polarizados em relação ao masculino e ao feminino limitam as potencialidades de cada indivíduo. Desde que nossos pais tomam conhecimento da gestação, iniciam o processo de construção das nossas identidades. Utilizam da cultura para isto, porém geralmente não se questionam do porquê de suas escolhas com relação as cores das roupas, aos modelos de brinquedos, e principalmente, à educação diferenciada que darão aos filhos devido ao gênero que irão pertencer. Eles "somente" reproduzirem os modelos que já existem.

As limitações de papéis de gênero são várias, mas em relação ao masculino, encontramos vários "nãos":

*Não pode chorar ou demonstrar sensibilidade,
*Não pode pedir ajuda,
*Não pode ser dominado pelas mulheres,
*Não pode não conseguir.

E para cada "não" existe um "tem que":

*Tem que ser forte,

*Tem que ser frio, manter distanciamento emocional,
*Tem que dominar as mulheres,
*Tem que conseguir (sucesso profissional, mulheres, dinheiro, status...).

Parecem radicais ou ultrapassados esses estereótipos? Então perceba o contexto de violência, e analise que gênero está entre o maior responsável por assassinatos, que gênero utiliza mais drogas lícitas e ilícitas, que gênero é responsável pelo maior número de evasão escolar. Perceba também a discrepância nos números de homens e de mulheres com cargos a nível de gerência.
Os homens, por possuírem a responsabilidade de fazerem valer o estereótipo de masculino, acabam limitando as suas potencialidades e desenvolvendo máscaras sociais.

>>>Quando o pai fala para o seu filho que homem não chora, que homem precisa ser forte e trabalhar desde cedo para manter a casa, que homem não pode levar desaforo para casa, que precisa bater para ser respeitado, esse pai ou este modelo de educação acaba reforçando que a criança é inadequada e que precisa desenvolver essas "habilidades masculinas" para ser amado ou aceito enquanto homem pelo pai e pela sociedade. <<< É neste sentido que a violência se instala, e que a personalidade se molda nas expectativas de gênero. Logo, tudo aquilo que não é considerado masculino passa a ser visto como feminino, e obviamente, rejeitado. É assim também que surgem os preconceitos com relação à homoafetividade, pois se ser homem significa ser "frio" e "pegar" várias mulheres, logo àquele homem que se mostra emotivo e que não objetifica as mulheres passa a ser considerado afeminado ou homossexual, alvo de inúmeras injustiças.

Pensar na neutralidade de um sujeito quanto à sua identidade sexual e de gênero é considerar a utopia que está além da equidade de gênero. Então, antes de se pretender resgatar a espontaneidade de cada sujeito, é importante discutir o porquê a sociedade faz necessária a classificação de comportamentos e sentimentos diferentes de homens e de mulheres. Deve-se refletir sobre a liberdade individual em se escolher, independente do que a sociedade apresenta, pois, ontologicamente, não existe uma essência humana.
O objetivo dessa mudança social, mas que, sobretudo, inicia com uma implicação individual, é permitir a reflexão sobre os papéis de gênero e, sobretudo, desejar que os indivíduos, independente do seu sexo, se tornem quem desejam ser. E ainda, conforme apresenta Castañeda (2006, p. 24), "o inimigo a ser vencido não é a masculinidade, mas uma certa definição de masculinidade e, portanto, de feminilidade, que é a base do machismo".  Assim, como escreveu Doroth Parker (apud BEAUVOIR, 1970, p. 8), "minha ideia é que todos, homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser considerados humanos".  Refletir sobre os padrões sociais torna-se importante para rever a origem de atitudes negativas a partir deles e também as implicações da reprodução de tais padrões. Discutir sobre as estereotipias de gênero traz um desconforto devido ao tempo em que elas são reproduzidas e à forma com que estão arraigadas no discurso. Contudo, discutir e refletir sobre o assunto ajuda a problematizar quais comportamentos são importantes adotar para modifica-los e, possivelmente, erradicar os pré-conceitos sobre homens e mulheres, permitindo a todos uma vida de maiores possibilidades de ser. 

Portanto perceba se os seus sentimentos de inadequação são originados através crenças limitadoras, e busque alternativas para se experimentar fora dos padrões "estabelecidos". É provável que haverá sofrimento em ambas as escolhas: sofre-se por reproduzir algo que não é espontâneo, e sofre-se por abdicar desses comportamentos e deixar talvez de agradar a quem os estruturou. Porém, nas duas situações é fundamental se questionar sobre qual papel você está desempenhando na sua vida e se ele está condizente com o que você almeja para si.

Um psicólogo pode te ajudar a identificar esses papéis. Procure ajuda, faça isso por si. Invista na sua felicidade.


(Os grifos em itálico fazem parte da monografia: As implicações do sexismo benévolo na afirmação de estereótipos femininos, de autoria de Jéssica Horácio de Souza).

domingo, 16 de outubro de 2016

Mas eu me mordo de ciúmes!

Você já parou para analisar como é a sua relação com o ciúme?

Na infância algumas crianças tem medo de perder os brinquedos e por isso em algumas situações acabam não dividindo ou emprestando para o irmão ou para o colega. Na adolescência começam a cuidar melhor dos seus pertences (maquiagens, videogame, roupas...) com medo de que eles sumam ou estraguem. E quando iniciam os relacionamentos com parceiros, entram em contato novamente com o sentimento de posse/medo/insegurança. Sabe o que todas essas situações tem em comum? O medo de perder o objeto de desejo e entrar em contato com o sentimento do abandono.

Porém às vezes o motivo por trás do ciúme é inconsciente, ou seja, o indivíduo não compreende os seus medos e acaba assumindo um comportamento controlador em relação ao parceiro. Você já deve ter conhecido relações em que um dos parceiros estabelece onde o outro "pode" ir, segue a namorada, invade a privacidade do outro através das redes sociais... E quando questionado (a), justifica as suas atitudes dizendo que faz isso porque "hoje em dia não dá para confiar", ou: "faço isso porque ele (a) já foi infiel comigo", e ainda: "não quero ser feito (a) de bobo (a)".


É importante compreendermos que o ciúme é um componente natural das relações, sejam elas estabelecidas entre indivíduos ou entre indivíduo - objeto. O que Freud nos mostra é que existem graus e tipos diferentes de ciúmes, em todos eles o que predomina é uma disputa imaginária sobre o objeto de amor (aqui a palavra objeto se refere a algo ou alguém em quem depositamos as nossas idealizações e paixões).
O indivíduo sente que precisa do outro para se sentir completo, e então estabelece uma relação de dependência com o parceiro. Deste modo teme perder a sua "fonte de vida" pois acredita que sem essa "fonte" não "existirá". Como consequência disso pode ocorrer uma disputa de egos onde o indivíduo tenta competir direta ou indiretamente com a sua ameaça, pois sente-se inseguro em relação à si julgando que poderá ser substituído por "algo melhor".  O ciúme pode ocorrer também como uma projeção paranóide em que por desejar ter outras relações, o indivíduo desconfia do seu parceiro julgando que ele também possui este desejo.

Toda relação que se estabelece por dependência considera que existe a necessidade de um satisfazer as necessidades do outro. E é através deste formato de relacionamento que se instaura o ciúme patológico (onde não há o controle das ações motivadas pelo medo da perda e do abandono).


>>>Mas por que desenvolvemos este medo?<<<
Cada etapa do desenvolvimento infantil possui características específicas. De forma simplificada, para o bebê nos seus primeiros meses de vida quem desempenhará o papel de seu primeiro amor será a mãe ou a figura cuidadora. Logo ele compreenderá que todas as suas necessidades serão satisfeitas por esta figura. Contudo, ao perceber que a mãe por exemplo, divide a sua atenção com o pai e ou com o irmão, a criança se sentirá "trocada" ou "substituída". A forma como a criança irá lidar com este sentimento dependerá de como será conduzida a educação dela. Ela poderá se tornar competitiva, poderá sentir raiva ao entrar em contato com situações em que é substituída ou em que perde, poderá se tornar insegura e com medo de arriscar e por isso ficar sempre na zona de conforto, poderá se tornar dependente de algo ou de alguém, e como núcleo de todos estes fatores poderá desenvolver o ciúme patológico, uma vez que ele se desenvolve como uma forma de se proteger do medo de entrar em contato com o sentimento de abandono e de perda do objeto amado.

>>>Como podemos lidar com o ciúme patológico?<<<
Antes de qualquer protocolo clínico, é fundamental que o indivíduo reconheça em seus comportamentos algumas atitudes que o limita a se relacionar de forma saudável. Para isso podemos analisar os discursos dos nossos parceiros com relação ao modo como estamos nos posicionando na relação, podemos identificar os sentimentos presentes em uma situação em que não temos controle sobre ela. É fundamental também que busquemos auxílio psicológico para compreendermos a origem do nosso ciúme, de que forma o expressamos, e as medidas que podemos tomar para eliminar o conflito por trás dele.

Porém algumas dicas são válidas, gosto de perguntar aos meus pacientes: Qual a evidência que você tem de que este seu pensamento (fui/sou/serei traída (o)) é real? Quando nos posicionamos na realidade percebemos se os nossos pensamentos são reais ou se eles estão contaminados de crenças negativas e disfuncionais, acabando por desorganizar os nossos sentimentos e limitar as nossas ações.

Quando temos somente um foco na nossa vida, a tendência é que tenhamos muito medo de perder este foco, afinal, é ele quem dá significado à nossa vida. Desta forma ficamos extremamente inseguros e com medo de perdê-lo e com isso "sufocamos" o (a) parceiro (a). Portanto, perceba porque você tem colocado o seu relacionamento na posição em que ele está, reavalie se eles está antes ou depois de você. A partir disso, ajuste as prioridades e amplie as possibilidades de ser feliz.

"A vida começa onde termina o medo." - Osho.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"Eu não consigo confiar!"

A subjetividade humana permite que cada indivíduo tenha uma resposta única para situações comuns à vários outros indivíduos. Logo, não existe uma causa geral para compreender todos os comportamentos, pois cada um terá uma resposta diferente que vai depender da história de vida do indivíduo, da sua educação, dos seus sentimentos, dos seus conflitos infantis...

A confiança por exemplo, para alguns ela é facilmente estabelecida em uma relação, já para outros ela é um desafio para o desenvolvimento de vínculos afetivos.


Temas como desconfiança são recorrentes, porém é importante analisar se ela é situacional (um evento específico - neurose), ou se ela é constante (alerta permanente - psicose). Partindo do ponto de vista psicanalítico, a neurose é decorrente de tentativas ineficazes do ego lidar com conflitos e traumas inconscientes, o que acaba limitando as respostas do indivíduo quando encontra-se frente à eventos que geraram ou que lembram os traumas. Exemplo: Fui traída pelo meu ex esposo, logo tenho dificuldades de me relacionar novamente com um outro homem porque tenho medo de novamente ser traída - dificuldade em confiar.


É importante analisar a origem da desconfiança, compreender os motivos que sustentam o medo de se entregar, para então elaborar os traumas que a sustentam e construir novas formas de se relacionar. Ás vezes o sentimento que sustenta a desconfiança pode se confundir com o medo de ser "abandonado", com o medo de se frustrar com relação ao outro, com o medo de entrar em contato com sentimentos de inferioridade... 


Porém, não somente devido a formação de um trauma inconsciente, a desconfiança pode ter um motivo real também e isso ocorre quando existem evidências de que o outro não demonstra comprometimento com a relação, ou que não age de acordo com o que fala, quando ele não respeita você e a própria relação...


Saindo do campo da origem das neuroses e dos processos inconscientes, vemos que a desconfiança pode ter relação com o modo como o indivíduo se coloca em um relacionamento. Você já analisou como se configura esta relação onde existe a desconfiança da sua parte? Não? Que tal fazer isso para identificar o que é real e o que é "neurótico" e se reajustar conforme as suas descobertas?


*Você sabia que a desconfiança pode ser originada pela dificuldade de colocar limites?

Quando somos muito permissivos em nossos relacionamentos, e passamos a aceitar todo e qualquer comportamento do outro embora este nos afete negativamente, estamos enviando as seguintes mensagens à ele e à relação: "Eu permito que você ultrapasse os meus limites/ Você é mais importante que eu nessa relação/ Eu aceito me prejudicar para vê-lo satisfeito com aquilo que você quer".


Logo, ao sermos permissivos acabamos nos desrespeitando, e o outro indivíduo envolvido na relação indiretamente também passará a nos desrespeitar, pois se eu permiti que ele fizesse determinada situação, ele entenderá que está tudo bem em continuar reproduzindo esta situação, e a tendência é de ampliar os seus direitos a ponto de conseguir controlar você. Exemplo: Eu permiti que o meu funcionário chegasse atrasado nos dias em que tem prova na faculdade. Contudo essa permissão prejudica o funcionamento da empresa, e tenho percebido que ele agora está se atrasando todos os dias sob a justificativa das várias atividades que tem que fazer na faculdade. Como vou confiar nele?


Bem, neste caso fica evidente que a dificuldade de confiar é proporcional à dificuldade de colocar limites na relação, e que esta pode ter uma origem no medo de desagradar (que é assunto para outro post). Uma vez identificada a origem da desconfiança fica mais claro a possibilidade de modificar a situação, de perceber a minha responsabilidade neste processo e definir estratégias parareestruturar a relação.



Portanto, se questione, separe um tempo para se analisar e observar quais sentimentos tem contribuído para o desenvolvimento de comportamentos negativos, e assim, poder ajusta-los. Um psicólogo clínico é o profissional capacitado para lhe auxiliar nesta busca pelo autoconhecimento, e por uma melhor qualidade de vida.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Como é a sua solidão?

Você consegue responder a estar pergunta? Se consegue, certamente você já parou para se questionar sobre isso, caso não consiga, é muito provável que você não tem se dedicado no processo de se conhecer. O autoconhecimento é como uma bússola, ele nos orienta através do ponto em que estamos, nos faz perceber por onde podemos andar para chegarmos no nosso objetivo, e por onde devemos evitar passar para não nos perdermos. Contudo, como todo instrumento de orientação, é fundamental que saibamos utiliza-la.

Um começo positivo na busca do autoconhecimento é analisar como estão os nossos relacionamentos (família, amigos, cônjuge...). A forma como as pessoas interagem com a gente nos permite verificar como estamos nos posicionando nessas relações: se estamos determinando limites, se a nossa comunicação verbal está condizente com as nossas ações, quais as nossas expectativas em cada relação, e também quais os sentimentos presentes em cada uma delas.

Porém, algumas situações podem se tornar difíceis de serem analisadas por nós mesmos porque as emoções e os sentimentos pertencentes nelas podem nos limitar. Ás vezes, sentimos tanta tristeza ao pensarmos em alguém que não conseguimos visualizar o motivo da tristeza, a origem deste sentimento, qual a nossa responsabilidade nele e o que podemos fazer para elaborarmos a situação.

A solidão é um exemplo disso. Às vezes nos sentimos sozinhos e até nos queixamos por isso. Temos a sensação que não há ninguém por perto para nos ouvir, para nos auxiliar ou acolher. Associada à tristeza vem o sentimento de frustração, pois criamos expectativas sobre o outro: depositamos nele a responsabilidade de mandar para longe a nossa solidão, contudo, o outro por desconhecer esse fato ou por não ter condições de nos auxiliar, acaba desempenhando o papel de vilão. E nós, vítimas da vida.

Nesse contexto é importante questionarmos:
*Qual a evidência que eu tenho de que realmente estou sozinha?
*Por que acredito que estou sozinha?
*O que tenho feito para manter meu circulo de amigos e familiares?
*Como estou transmitindo a mensagem de que preciso ser acolhida?

Após identificarmos as nossas crenças a respeito do nosso sentimento de solidão, então é o momento de pensarmos o que podemos e queremos fazer para modificar a nossa realidade (modificar a nossa percepção sobre nós mesmos, transformar os papéis negativos que desempenhamos por papéis positivos e que fortalecem a nossa interação social, ir contra antigos padrões comportamentais, pedir ajuda...).


Saiba que o psicólogo clínico é o profissional capacitado para lhe auxiliar a identificar a origem dos seus sentimentos. Além disso, ele conseguirá lhe auxiliar na busca de autoconhecimento contribuindo para que você  compreenda os seus relacionamentos, se conheça melhor, transforme a sua forma de se relacionar e modifique a sua realidade dentro do que lhe é permitido.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Você aprendeu a confiar ou a controlar?

"O inferno são os outros", disse Jean Paul Sartre, filósofo francês, maior representante do existencialismo, uma abordagem filosófica complexa que compreende que o indivíduo se molda através das suas escolhas e que elas refletem a forma como "ele" quer "ver" o mundo.

Embora pareça cruel, a frase de Sartre se torna mais realista ao invés de pessimista quando pensamos nos relacionamentos humanos. Somos seres relacionais, precisamos do outro para construirmos o nosso projeto de ser, o nosso destino, a nossa história. Porém, cada pessoa possui uma história, um passado, e os projetos para o futuro são baseados no que já foi vivido. Logo, cada pessoa construirá a sua vida de uma forma singular, subjetiva.

É por isso que é tão complexo nos relacionarmos, porque ao entrarmos em contato com o outro acabamos percebendo o quanto somos diferentes, e a diferença assusta, através dela identificamos que não possuímos controle sobre as escolhas do outro. E não termos controle sobre algo ou sobre alguém gera angústia e este sentimento acaba nos fazendo entrar em contato com um outro ainda mais profundo: com o sentimento de insegurança.

Algumas pessoas questionam: O que eu faço para confiar nele (a)? Não sabendo que a desconfiança é uma consequência da insegurança. O que é fundamental analisar é se essa insegurança diz respeito à nós mesmos (não me sinto bom (a) o suficiente) ou se diz respeito ao outro (ele (a) me traz evidências de que não está comprometido com a relação).

As relações familiares contribuem para a estruturação da personalidade do indivíduo. Se os pais superprotegem o filho não o deixando fazer as suas próprias escolhas, é provável que contribuirão para a formação de uma personalidade que acredita que: "Não posso escolher porque é perigoso". Estes tipos de condutas: superproteção, medo constante, escolher pelo filho, dizer muitos 'nãos', acabam tolhendo os desejos da criança e essa aprende que não pode confiar em si mesma, que não é capaz de fazer escolhas, e que precisa depender do outro para sobreviver uma vez que ela não é suficientemente capaz de administrar a própria vida. Bem, uma vez que se sente insegura consigo, o indivíduo deposita todas as suas expectativas de felicidade no outro e passa a viver relações de dependência. Porém, como mencionado acima, devido ao outro possuir também a sua singularidade, em alguns momentos poderá "falhar" ou frustrar o (a) parceiro (a). E é aí que pode surgir a desconfiança e ou o medo de confiar.

Muitas pessoas confundem "confiar no outro" com "controlar o outro". A confiança se dá em relações em que se compartilha algo, onde os sentimentos são recíprocos, ou onde existe transparência sobre o que cada um sente e o que pode oferecer ao outro e à relação. Já o controle diz respeito ao condicionamento do outro, a querer que o outro pense e faça exatamente como ele. E aí, quando tentamos controlar o incontrolável nos sentimos frustrados, cansados e inseguros. 

Por isso é fundamental estabelecermos relacionamentos maduros onde compreendemos que o nosso parceiro possui sua individualidade assim como nós mesmos, onde esclarecemos os nossos objetivos na relação e o que queremos do outro. O diálogo é primordial para qualquer relacionamento, contudo, é necessário que ambos sejam sinceros e comprometidos com o que se propõem. Quanto à sinceridade do outro, através do convívio passamos a conhecer se suas ações são condizentes com os seus pensamentos e qual o lugar que ele dá aos próprios sentimentos. 

Logo, é importante nos conhecermos melhor, saber os nossos limites, identificar o que precisamos e o que estamos dispostos a compartilhar. Assim buscaremos relações que irão ao encontro dos nossos objetivos. 

Lembre-se: Confiar é diferente de controlar. Confiar envolve compartilhamento e não doação total da própria vida. Precisamos nos sentir seguros sozinhos para que entremos em uma relação para compartilhar e não por necessitar do outro.