sábado, 10 de outubro de 2020

Hei, como é que você foge da solidão?

 

Você sabia que a intensidade do desejo de agradar as pessoas será proporcional ao medo da solidão? Pois é, existe inclusive uma frase que diz mais ou menos assim: "Quando eu sou quem você quer que eu seja eu já não sou mais eu inteira, mas sou somente uma parte de mim que teme a solidão".

Faz sentido para você?

Na tentativa de aplacar a repetição de uma história dolorida de rejeição que ficou no nosso passado, desenvolvemos uma estratégia, é o famoso mecanismo de defesa que a psicanálise nos presenteou. Nós vestimos a máscara da polidez, passamos a ser extremamente disponíveis, dispostos, agradáveis e sem vontade própria. E se essa máscara em algum momento parece realmente evitar o nosso contato com uma nova rejeição e solidão, então nós confirmamos a ideia de que ela funciona e passamos a incorporar esta máscara ao nosso armário. Para alguns esta máscara vira uma segunda pele que os acompanha durante toda uma vida.

Evitar uma dor não significa sentir alegria. Evitar o desprazer não é o mesmo que ter prazer. E te escrevo isso porque gostaria de te ajudar a refletir que talvez você esteja vivendo somente para se poupar de sentir dor e não percebe que esse movimento de super proteção consigo impede que o prazer faça parte dos seus dias. Você pode até ter pessoas ao seu entorno justamente por se cobrar a ser tão disponível e amável, mas, e quando todos vão embora, o que você faz com a solidão que te habita?

A solidão quando decorrente de um trauma, é muito dolorida porque geralmente está associada a uma situação de rejeição ou de abandono, foi exatamente aí onde o mecanismo de defesa surgiu para nos poupar de acessar novamente este trauma: "opa" vou ser bonzinho para não perder mais ninguém!", mas honestamente, será que este mecanismo ainda funciona, e mais, será que ele ainda é necessário?

Quem sabe você deixou a sua identidade lá atrás e por isso não reconhece mais a sua capacidade de lidar com algumas emoções e sentimentos, talvez a sua identidade ficou congelada no momento daquele trauma, e desde então você está caminhando com uma pseudo identidade, e se você quer saber o real preço disso é só olhar para as suas relações. Pode estar faltando "eu quero", "eu não quero", "eu prefiro", eu gosto", "eu não gosto", "sai daqui", "vem aqui", "eu mereço".

Eu gostaria que você se desse a oportunidade de voltar algumas casas atrás para entender onde a sua identidade ficou, e poder chorar ao olhar para ela, gostaria que você sentisse compaixão por quem você se tornou, e pegasse enfim todas as mágoas e tristezas e raivas acumuladas para resgatar aquela parte sua que ficou presa no limbo traumático. Eu gostaria que você fosse mais você, mas gostaria que você fosse por você e não por mim, afinal, se agradar é uma novidade, já agradar o outro... essa é a sua especialidade, mas não precisa ser mais.

Busque ajuda psicológica para lidar com o medo da solidão, se permita identificar em que momento o trauma aconteceu, e então elaborá-lo para não mais viver temendo que ele ressurja.



A linha tênue entre autocuidado e procrastinação

 

Você certamente já comeu uma sobremesa muito gostosa, tão gostosa que dava vontade de repetir de novo. Mas ao repetir, sei lá, "do nada" ela ficou enjoativa. A garganta começou arranhar e aí você percebeu que a experiência já não estava mais sendo boa, ela de repente tinha se transformado em mal estar. Linha tênue né? Pois é, eu poderia falar sobre como os excessos às vezes se transformam em intoxicação mas talvez até aqui você tenha conseguido refletir sobre isto, então neste momento quero conversar com você sobre desconhecer os próprios limites, as próprias satisfações, sobre não ter uma boa relação com o seu termômetro físico e emocional.

Gente, como fazer escolhas às vezes se torna um processo extremamente difícil e amedrontador, nestas vezes parece tão mais fácil ouvir alguém e atender exatamente o que este alguém nos diz, né? "O que você acha que eu devo fazer?" - Esta é uma pergunta que eu costumo ouvir nos primeiros atendimentos - nos primeiros porque no decorrer do processo terapêutico  o paciente vai percebendo que não dou respostas porque simplesmente não tenho este direito, somente ele tem.

"Será que eu estou me poupando de estresse ou será que estou procrastinando algo que eu preciso fazer?" Eu honestamente não sei responder esta questão, mas eu posso te fazer outras para que você pense um pouco sobre si:

 

·         Qual a sua condição emocional neste exato momento?

·         O que o seu corpo está pedindo?

·         Quais as consequências de atendê-lo?

·         Depois da satisfação que seu corpo está pedindo, você poderá novamente perguntar para si qual a sua nova condição emocional?

 

A insatisfação crônica aparece quando a pessoa não aceita o fim daquilo que é prazeroso e por não aceitar, quer sempre mais, e assim fica completamente dependente dos prazeres para viver, ela se torna refém dos próprios desejos.

Contar com o desejo para realizar algo que estabelecemos como importante ou necessário para a nossa vida - mesmo que a satisfação venha a longo prazo - é bastante arriscado e até mesmo infantil. Não pegue esta última palavra com uma conotação pejorativa, pois, só quero te dizer que é a criança que faz do desejo o seu mestre, é ela que conta com ele para  emocionalmente se movimentar na vida. Não, o desejo não vai aparecer sempre e ele também não regerá as nossas escolhas o tempo inteiro, até porque não é necessário. Podemos fazer escolhas que estão ligadas a outros correspondentes emocionais desde que essas escolhas combinem com o que queremos para nós.

É como descansar, o bem estar só aparecerá porque descansamos, ou seja, porque estivemos cansados e o ato de descansar aliviou a nossa fadiga. O descanso só tem efeito reparador quando há cansaço. E para que haja cansaço é necessário ter um movimento em prol do esforço e que nem sempre virá atrelado ao prazer imediato.

Quem sabe você a partir da leitura deste artigo, possa se perceber mais no seu dia a dia para identificar qual a linha que separa o seu autocuidado da pocrastinação, talvez você até já saiba e apenas precisa assumir conscientemente quando está em contato com um ou com o outro.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Culto ao esforço


Se você tiver a oportunidade, pergunte aos seus pais e avós como era a qualidade de vida deles quanto tinham a sua idade. Escute a história que eles têm para contar, observe as prioridades deles na época, os objetivos de vida que tinham, as preocupações e valores morais que faziam parte do seu dia a dia. Pergunte também sobre as condições físicas, financeiras, emocionais e culturais.
Dentro do desenvolvimento saudável do ser humano, é necessário que em um dado momento da sua infância ele consiga se distinguir da mãe e do pai. Quando essa desfusão não acontece o indivíduo cresce acreditando que o jeito de viver dos pais é o único no mundo e que portanto, é o seu também, ele constrói então uma simbiose relacional onde ele e o pai ou a mãe são a mesma pessoa. 
Então, se este processo não aconteceu naturalmente, quando adultos podemos conhecer a realidade dos nossos familiares para nos ajudar a separar a história deles da nossa. Há pessoas que carregam por gerações a fio uma crença que é altamente prejudicial para os dias atuais, mas que por nunca ter sido questionada, acaba se tornando uma regra fixa.
A valorização do trabalho e dos esforços para conquistar coisas, espaço e poder demonstram esta situação sistêmica. Ás vezes existe uma identificação tão intensa com a história passada dos próprios familiares que a pessoa sem perceber, acaba reproduzindo o mesmo modo de viver de alguns membros da família: buscam os mesmos empregos, os mesmos salários, a mesma satisfação ou insatisfação, e até mesmo os mesmos desgastes físicos, mentais e emocionais.

Algumas pessoas relatam:
“Mas eu aprendi com o meu pai a viver pro trabalho”
“Mas a minha mãe disse que descansar é coisa de vadio e de quem não quer nada com a vida”
“É como a minha família sempre diz: 'Agora é a hora de eu produzir e render pra um dia poder descansar na velhice'”...

Neste sentido, há famílias que cultuam o esforço e o sofrimento no meio profissional, nem se questionam sobre o porquê, até porque acreditam que sofrimento e trabalho estão ligados sendo impossível quebrar esta relação. São pessoas que aprenderam a viver somente para suprir as  necessidades mais primitivas da vida, e que precisaram negligenciar as próprias emoções em prol da sua existência. Não podiam sentir medo, sono, cansaço porque a vida exigia pressa e produtividade, logo, tiveram que inconscientemente bloquear os seus sentimentos e viver como se fossem máquinas. E mesmo que os anos se passem, continuam vivendo desse jeito: se culpam por descansar, quando pegam férias se cobram, sentem vergonha de admitir as suas vulnerabilidades, desenvolvem crises de ansiedade e adoecem quando param de trabalhar...
E então aquela crença de que "um dia vou descansar" não se concretiza uma vez que não se aprendeu a descansar, não se autoriza a sentir prazer e ter momentos de lazer.
É por isso que te questiono: Qual o sentido que a vida profissional tem para você?, e este sentido, foi você quem criou ou ele foi construído por alguém que não é você?
Se apropriar dos nossos objetivos na vida é uma forma de fortalecer a nossa identidade e obter mais satisfação no nosso dia a dia, é dessa forma que conseguiremos separar a nossa história de vida daquela que nossos familiares tiveram.
Então, te sugiro refletir sobre a possibilidade de viver para além do trabalho, em construir outros papéis na sua vida tão importantes quanto o de profissional. A qualidade de vida é conquistada quando permitimos que cada área da nossa vida tenha uma representação saudável e compatível com a realidade: ser pai, mãe, profissional, amigo, filha, neto, estudante, merecem espaço na nossa história, e podem nos abrir um novo mundo de possibilidades e, de crenças, porém agora, autorais, personalizadas por nós mesmos e com base nas nossas próprias experiências.

domingo, 5 de maio de 2019

Psicoterapia pelo bem da nossa saúde emocional


Gosto de perguntar ao paciente que me procura se é a primeira vez que ele faz psicoterapia e o que sabe sobre o processo terapêutico, é uma forma de compreender como ele lida com a sua saúde mental e se possui alguma crença errônea sobre o trabalho terapêutico. Algumas pessoas vem tímidas ao consultório, aparecem inseguras, desconfiadas... Mas ao longo da psicoterapia revelam frases como: "por que eu não iniciei antes?", "Tô falando pra todo mundo vir fazer terapia", "Há um tempo atrás eu faria totalmente diferente", "Como não enxerguei isso antes?", "Sou uma nova pessoa"...
A Declaração dos Direitos Humanos defende a ideia de que a saúde é um direito universal, contudo, algumas políticas governamentais não facilitam o acesso à ela, principalmente no âmbito da saúde mental. A exigência social em torno do poder e sucesso, imediatismo e baixa tolerância à frustrações contribuem para o desenvolvimento dos transtornos mentais e, sem um suporte psicológico e psiquiátrico, o agravamento de quadros psicopatológicos aumenta.
O ser humano não é uma receita de bolo única, nem um robô que tem a mesma programação. Somos únicos e por isso, complexos. É por isto que oferecer métodos universais de cura para o sofrimento psíquico é altamente perigoso. A psicoterapia então se faz necessária porque é através de uma ciência que estuda o comportamento humano (psicologia) que é possível respeitar e compreender a singularidade de cada indivíduo oferecendo o tratamento adequado de acordo com cada história de vida.
Cada ser humano que senta em frente ao psicólogo, está carregando consigo um passado repleto de dores e amores, o que ele fala não é necessariamente o que ele diz, as palavras nem sempre conseguem traduzir a dor ancorada naquele corpo, mas, o profissional da psicologia clínica possui capacitação para ouvir o que não é dito e oferecer uma intervenção importante para aquilo que ficou nas entrelinhas.
Na correria do dia a dia não paramos para refletir sobre as nossas ações, nem para prestar atenção no nosso corpo, muito menos nas nossas emoções. A alta demanda de trabalho, as cobranças sociais em torno de um "dar conta de tudo", os preconceitos e julgamentos muitas vezes impossibilitam a espontaneidade das pessoas, gerando seres automáticos e engessados.
Mas, como conseguiremos colocar a vida em movimento se não dermos atenção para aquilo que nos orienta? Não é possível trabalhar com qualidade se nossas emoções estão conturbando nossa forma de pensar e agir. É por isso que se conhecer se faz necessário, o autoconhecimento proporciona tomada de consciência do próprio funcionamento. Costumo dizer que quando entramos em um processo terapêutico passamos a descobrir qual o é o mapa da nossa vida, vamos conhecendo cada caminho, identificando atalhos, percebendo os becos sem saída. E decidindo caminhar pelo roteiro que mais combina com os nossos objetivos.
A psicoterapia não oferece respostas prontas, nem soluções para problemas. Mas ela oferece recursos para ajudar cada paciente a descobrir e construir as suas próprias respostas, desenvolver resiliência e se reconciliar com a sua história.
Não espere sofrer para reconhecer a importância de cuidar do seu eu, o autoconhecimento pode iniciar mesmo que não exista uma dor dilacerante. Você não tem que dar uma chance para a psicoterapia, você precisa dar uma chance para a sua saúde emocional, para você.



Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira


Estamos na era das fake news: onde a mentira é utilizada para chamar a atenção. Você já percebeu o quanto estamos carentes de olhares a ponto de precisarmos construir uma mentira para sermos vistos?
Criamos, fantasiamos, inventamos algo que não é real no concreto mas sim na nossa imaginação e que serve de marketing ou chamariz para uma mente tão carente como a nossa.
Mentimos para ganhar atenção, para sermos vistos com admiração: a gente aumenta e inventa, mentimos pra ganhar e para não perder: para ganhar o amor de quem queremos conquistar, e para não perder a admiração daquela pessoa de quem ainda necessitamos de aprovação e que se descobrisse a verdade rejeitaria profundamente as nossas escolhas, mentimos para negar a realidade que nos causa dor. Mentimos porque em algum momento aprendemos que mentir funciona, que causa algum efeito. Até ser descoberta.
Mas será que as piores mentiras realmente são aquelas que escondem do outro o direito de saber a verdade ou se é aquela que contamos a nós mesmos?
É que quando deixamos de prestar atenção em nós mesmos, acabamos não percebendo o nome de cada emoção ou sentimento que habita em nós. É assim que nos afastamos de quem verdadeiramente somos para nos aproximarmos de quem achamos que devemos ser. Queremos tanto agradar o outro que sem perceber nos desagradamos.
Vale a pena refletirmos: Será que se tivéssemos carinho e atenção de qualidades precisaríamos construir falsas notícias para sermos vistos? As fake news trazem suas consequências, muitas vezes desastrosas, mas elas são sintomas de uma sociedade carente e entediada que não aprendeu a lidar com a falta, que não sabe reconhecer o limite entre a carência e a tragédia.
Por isso hoje tente perceber qual a maior mentira que você insiste em contar pro outro e principalmente, para si. Observe as consequências deste faz de conta.
Que possamos descobrir as mentiras que se abrigam nos cantos escuros da nossa mente, e que saibamos fazer as pazes com o que ali encontrarmos, de verdade.

domingo, 31 de março de 2019

Foi a vida que te esqueceu ou foi você que se vitimizou?


Uma das piores dores é a de se sentir excluído, você provavelmente sabe do que eu estou falando. Parece que todo mundo tem o seu lugar no mundo menos você que se sente um ser à parte, um ponto fora da curva, uma pessoa completamente deslocada, negligenciada, esquecida. “Todo mundo” está feliz - você pensa. “Todo mundo” está se divertindo - pelo menos é o que você vê nas suas redes sociais.

E é assim que você começa a questionar a sua própria vida, a criticar as suas escolhas, a se diminuir pelo fato de simplesmente ter uma vida diferente daquela que os outros aparentam ter. Você generaliza a felicidade alheia para intensificar a sua miséria, você usa de fragmentos de uma rede para condenar a sua própria vida, e talvez nem perceba mas cada vez que faz isso mais você se vitimiza diante da vida, como se o universo estivesse à favor de todos exceto de você.
E sim, pode ser que realmente as pessoas que você acompanha nas redes sociais estejam felizes, estejam se divertindo de verdade, aproveitando a vida. Mas essa é a vida que elas estão escolhendo, construindo, e você, o que está fazendo com a sua oportunidade de viver?

Por que tanto desprezo por si? Quando foi que você aprendeu a hipervalorizar as conquistas do outro e diminuir as suas? É que não estamos falando somente de conquistas, estamos falando de valorizar as próprias experiências, valorizar a sua própria vida.

Parece que aí dentro de você mora um indivíduo sabotador: que faz questão de olhar para os lados pra rejeitar o que está bem debaixo do próprio nariz. Isso te lembra alguém?

Pois é, deve ter sido muito dolorido receber um dar de ombros quando se queria ganhar um “parabéns”, deve ter sido muito frustrante receber um “não fez mais que a sua obrigação” quando na verdade você queria só um abraço de orgulho e admiração, e pra não viver toda essa dor novamente seu inconsciente aprendeu a esquecer de si e olhar somente para o outro, foi assim que você se tornou um cobiçador da vida alheia.

Você não precisa dar continuidade nesse aprendizado arcaico e infantil. Sabia disso? As vezes quem te ensinou, não sabia que também podia olhar para si e se admirar. Ou ainda, não sabia da importância de estimular alguém a olhar para si... E embora tenha doído muito, hoje você pode reconhecer esta dor de forma adulta e buscar recursos para lidar com as ausências do passado.

Você pode interromper este ciclo, pode começar a se apropriar mais dos dias, horas, minutos que existem a sua disposição. Pode se permitir construir experiências que combinam com a sua identidade, pode se lançar para novas possibilidades e sim, se lhe for oportuno, também compartilhar nas redes sociais a sua felicidade.
O mundo não é só para os outros, o mundo é para você também.

Não fez mais que a sua obrigação?


Eu poderia sintetizar este texto utilizando a metáfora do copo: há pessoas que o vêem meio cheio, outras, meio vazio. O que muda não é objeto observado, mas sim a forma como se observa.
É duvidoso pensar que alguém goste de ser pessimista, que obtenha prazer e até mesmo qualidade de vida vendo a vida sob a ótica da negatividade, do menos, da escassez. É interessante porque atualmente os livros de autoajuda são os mais vendidos no mercado, mas são também aqueles que após lidos geralmente vão parar em uma gaveta e ficam completamente esquecidos. Não é porque eles não oferecem bons conteúdos, mas é porque eles funcionam para quem já tem a tendência em olhar a vida pelo prisma do otimismo. Quem desconhece esse jeito de viver poderá até se esforçar para seguir as tarefas que os livros sugerem, mas terão que lutar contra seus monstros internos que os pede constantemente para continuar vendo o copo meio vazio.
As pessoas que trazem este olhar pesado e até mesmo preto e branco sobre a vida possuem um caso íntimo com o perfeccionismo. Qual a relação? Quanto mais metódicas e exigentes consigo, maior a tendência em verem defeitos em si e no mundo.
Geralmente elas só se darão conta do quão doloroso é o próprio funcionamento quando receberem críticas: "Você é uma pessoa amarga", "...ranzinza, amargurada", "...está sempre de cara fechada, insatisfeita, emburrada". E também quando se compararem a outras pessoas que demonstram maior flexibilidade e gratidão para com a vida, aí se questionarão: "o que há de errado comigo?"
Como aprenderam desde muito cedo a serem perfeitas, acreditam que a busca pela perfeição é o único jeito de viver. Porém não se dão conta que o problema não está nas imperfeições que a vida apresenta, mas sim na busca delas por este ideal.
É interessante porque a sociedade capitalista reforça este padrão de perfeição, e contraditório porque esta mesma sociedade cultua através da arte, lugares e personagens aquilo que foge do padrão. A Torre de Pisa é um exemplo, milhares de pessoas visitam anualmente a torre torta na Itália para vê-la, tirar foto com ela; não muito longe temos em Gramado - RS, a famosa Rua torta que atrai centenas de turistas diariamente. Lady Gaga também representa este ponto fora da curva, uma cantora que faz do seu corpo uma tela para aquilo que quer representar rejeitando os padrões estereotipados para a sua profissão. Ou seja, parece que nós precisamos cultuar o que é imperfeito para mantermos a ilusão de que somos perfeitos.
As consequências disso são dolorosas do ponto de vista emocional: não reconhecemos os nossos limites, nos frustramos com muita facilidade, resistimos a mudanças, rejeitamos as adaptações, ficamos irritadiços quando algo não dá certo como idealizamos, não desenvolvemos resiliência, nos tornamos pessoas "emburradas".
E é necessário se dar conta dos prejuízos individuais que a ação de ver o copo meio vazio traz, é preciso identificar a dor da própria imperfeição para aprender a lidar com ela.
Então eu te lanço alguns desafios de autoconhecimento:
·         se olhe no espelho e perceba como você costuma se enxergar (com críticas ou com elogios);
·         reflita: quando você não consegue conquistar algo que quer, o que passa pela sua mente a seu respeito?
·         quando alguém próximo te presenteia, você se sente grato por isso ou acha que a pessoa não fez que a obrigação dela?

A psicoterapia provoca questionamentos fundamentais para que a tomada de consciência ocorra, mas sobretudo, ela oferece suporte para que o indivíduo faça contato com a dor de nunca ter sido considerado bom o suficiente. É através deste processo interno que a mudança real ocorre. Procure um psicólogo.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Você aproveita o que já conquistou ou vive buscando aquilo que não tem?


Quem nunca deixou de ver o que estava diante dos próprios olhos justamente porque estes estavam voltados para o que era distante?
Você já se perguntou quantas oportunidades bonitas passaram e passam diante de você mas que não são percebidas ou valorizadas porque você está almejando aquilo que ainda não tem ou que não pode ter? Parece que às vezes queremos o impossível, né?! O que está acessível, ali, bem ao nosso alcance não agrada, não brilha os olhos, não traz frio na barriga. Bom mesmo é se desafiar, é provar pra si mesmo que se tem o controle sobre o que se quer... Mas, será mesmo? Será que esta é a única forma de se obter satisfação?
Ás vezes aprendemos que a vida é uma eterna busca e que pra vivermos temos que buscar constantemente algo para nos preencher. Isto até pode ter feito sentido em algum momento de extrema necessidade em que não parar de lutar era primordial para a manutenção da vida, mas será que hoje ainda faz sentido dentro da sua história de vida?
Algumas pessoas relatam que não aprenderam a descansar, que só sabem viver quando tudo está um caos, afinal, foi através disso que se construíram. Pode parecer fácil, mas não é: algumas pessoas precisam aprender a descansar e usufruir do que já conquistaram. A tensão corporal é uma companheira permanente dessas pessoas, a ansiedade as visita constantemente e a insatisfação é quem abre as portas da casa para esta turminha emocional.
Cabe então refletirmos e nos questionarmos: até quando vamos romantizar o esforço que fazemos e principalmente a dor que sentimos enquanto lutamos para conquistar algo? Os esforços são necessários quando se está diante de algo vital ou que traz importante significado para a nossa vida, mas quando eles se tratam apenas de provar para si e para o outro que se é capaz, quando eles representam dificuldade de lidar com frustrações e falta de controle, aí precisam ser repensados e deixados de lado. Nestes momentos é que vale a pena olhar para o lado e ver o que já se conquistou e o que se pode fazer com isso.
Perceba que talvez neste momento a pessoa que está te dando um colo não tem os olhos da cor que você idealizou, não fala docemente, não tem todos os “dotes” que você aprendeu a valorizar; mas ela está aí e, por mais que não se encaixe no seu desejo de amor conjugal, pode te oferecer o colo que é o que tanto você busca naquela pessoa que simplesmente não está nem aí pra você.
Pra que então pegar o telefone nas mãos e visualizar de hora em hora na busca de um sinal de um outro alguém se neste momento tem alguém aí ao seu lado para conversar, te ouvir, te dizer? Usufrua do que é seu por direito, por mérito, por você existir, e avalie se você está aproveitando as oportunidades a seu favor. Aprenda a viver com o que você tem, se permita usufruir daquilo que você conquistou simplesmente por existir.

domingo, 25 de novembro de 2018

Inadequação: a dor de não fazer parte


Sabemos que nós seres humanos somos diferentes um dos outros e que aquilo que cabe para o outro não precisa necessariamente caber para nós. Isso vale para roupas, sapatos, pessoas, lugares... Mas apesar de sabermos disso, você já percebeu que ainda em alguns momentos insistimos em pertencer a um lugar que não combina com a gente? Bem, geralmente nem nos damos conta disso e é aí que o sofrimento psíquico começa a acontecer.
É que embora compreendamos racionalmente esta lógica da vida, nossos sentimentos não conseguem acessar este conteúdo racional. É necessário então falar com estes sentimentos numa linguagem compatível com eles. A razão pede realidade, os sentimentos pedem elaboração.
Cada experiência de exclusão, rejeição, humilhação, inadequação, pode intensificar crenças internas a respeito de si e da vida. Se o outro está rodeado de amigos e eu estou sozinha é porque ele é uma ótima companhia e eu não. Se a maior parte do meu círculo social se diverte em festas e eu em casa assistindo filme, logo me sinto inadequada e com isso intensifico alguma crença negativa a meu respeito e acabo enaltecendo os outros. Estes sentimentos tem origem no decorrer da infância e são oferecidos à criança através das suas primeiras relações.
Quando as diferenças são classificadas entre certo e errado, boas ou más, surge a baixa autoestima que acaba exigindo que nos adaptemos àquilo que o outro vive, afinal, é ele quem nos classificou como ruim, logo, ele é que é bom. Com o tempo não precisamos mais que alguém nos classifique, nós mesmos internalizamos o nosso rótulo negativo e passamos  a nos orientar através dele.
Às vezes por termos uma rígida obstinação nem percebemos que o lugar ou as pessoas não combinam com quem somos, e é aí que o corpo vai dando sinais para sairmos daquele espaço: o desânimo aparece, as pernas quase ganham vida própria de tanto que se debatem, o coração acelera, ficamos ofegantes e impacientes. Porém nem sempre a mente entende estes recados, e por ver que todos estão confortáveis ali, exigimos o mesmo de nós, afinal, quem deve estar com algum problema sou eu já que todos estão felizes.
O problema não está somente na tentativa de pertencer, mas nos sentimentos que a não concretização deste desejo suscita e nas crenças que estes sentimentos reforçam e que por fim acabam orientando uma vida.
Quando as dores da inadequação surgem cabe conversar com os próprios sentimentos, perguntar à eles o que precisam para cessarem. As respostas podem variar mas a base de cada uma delas será: pertencer. É neste momento que é necessário ir ao encontro daquele lugar que é seu, que tem a sua essência, que te toca e te traz conforto e confiança. Este pertencimento pode ter qualquer nome, pode ser uma pessoa ou um lugar, pode ser só ou com alguém, mas é neste lugar que a sua identidade precisa ser resgatada.
A sensação de ser inadequado ou estranho pode ser resultado de você não combinar com o ambiente em que está tentando se inserir, de você estar se forçando a ser alguém que não é. O resultado não tem como ser diferente, não tem como desenvolver intimidade com algo com o qual não se identifica. Então faça as pazes com o seu eu, aprenda a ver as diferenças como singularidades e não como polaridades entre bom e mal. Construa o seu próprio lugar e assim não precisará caber em todo e qualquer ambiente.
Está tudo bem em não gostar de tudo e em não se identificar com o que é considerado "bom", há vários outros espaços bons que combinam mais com a pessoa que você é. Descubra quais são eles e se aproprie do que te toca.




Medo do fim


“A bateria do celular vai acabar, preciso parar de usá-lo.”
“E se o dinheiro acabar? Preciso poupar.”
“Mas essa comida vai ser pouca, nem vou comer.”

Você se identifica com estas frases ou conhece alguém que tem o hábito de não viver o hoje? Para muitas pessoas reconhecer o fim independente do que, é extremamente doloroso, tanto que passam grande parte da vida negando a finitude de ciclos. É pelo medo de perder, acabar, recomeçar, que buscam poupar, economizar, deixar de fazer algo, para evitar este contato com o ponto final.
Contudo, sem se darem conta, acabam perdendo o contato com a vida pois barram as experimentações que o uso de algo pode trazer. A ansiedade costuma ser uma companheira de pessoas que possuem este padrão de funcionamento, parece que precisam ficar sempre alertas para não perderem nada. Nas relações costumam fazer testes para se certificar de que a pessoa com quem estão se relacionando ainda está presente e interessada pela relação.
Quando alguém diz, pensa e sente essas frases, inconscientemente está dizendo que tem medo de viver porque em algum momento irá morrer. É então que entram num processo de evitação do fim. Isso pode se tornar tão crônico que poderá perpetuar em todas as áreas da vida da pessoa: poupa dinheiro, evita entrar em relacionamentos, diz "não" para as oportunidades que surgem, não se permitem usufruir de algo que gostam por medo de acabar e terem que lidar com a perda.
"É tão bom, pena que acaba" - dizem. Mas será que não é justamente por isso que é tão bom? É através da possibilidade do fim que as situações ganham uma dimensão importante, podem ser valorizadas, almejadas, esperadas.
 Essa ânsia de perpetuar prazer para não fazer contato com a dor da perda - frustração, só afasta o indivíduo daquilo que faz a vida ter sentido que é o movimento do ciclo vital: início, meio e fim.
É importante cuidar e ser responsável pelo o que se tem, mas isso não precisa ter a ver com se privar ou evitar. Ao invés de tentar evitar a perda, pode ser mais interessante aprender a se satisfazer com a vida apesar dos seus altos e baixos - ganhos e perdas, e consequentemente lidar com aquilo que não foi feito pra ser eterno.
Então se aproprie dos ciclos, e reveja se você está se permitindo viver cada etapa que os envolve. A vida é início, meio e fim e cada fase depende uma da outra para que o movimento aconteça. Não boicote seu ciclo. Aceite a vida. Não permita que a dor da perda te impeça de construir novos começos.

O que você quer nem sempre condiz com o que o outro sente



Nem lembro quantas vezes já mencionei esta frase em consultório. Muitos pacientes precisaram ouvi-la ao longo do seu processo terapêutico apesar é claro, das singularidades que regem cada terapia. Mas é necessário porque embora seja uma questão lógica, muitas pessoas apresentam dificuldade de aceitar que se relacionar implica em viver incompatibilidade de pensamentos e sentimentos em algumas situações.
Mas muito além de saber que cada ser humano é diferente, é necessário falar com o sentimento que surge através desta realidade, afinal, não é porque a mente entende que as emoções e os sentimentos se dissiparão. Algumas dores que podem surgir diante da falta de reciprocidade são:

·        A frustração de não ter a resposta que esperou,
·        a impotência de ver a pessoa amada indiferente às manifestações de amor,
·        a dor da rejeição de não receber a aprovação que queria ,
·        a injustiça de perceber o quanto investiu pra se fazer visível,
·        a raiva de não ter o que julga ser seu por direito ou por perder o controle que se julgou ter...

A ausência de reciprocidade mexe com sentimentos muito primitivos que costumam ser o nosso calcanhar de Aquiles, aquela parte que tende a ser escondida justamente por ser altamente dolorosa e vulnerável. Esta dor pode mudar de intensidade ao longo da vida, mas ela sempre carregará consigo um significado a partir da infância. É por isso que tratar feridas envolve passar por um processo, é que é necessário revisitar o passado ora através de lembranças mentais, ora através de sensações corporais; para resgatar o conteúdo que ficou mal elaborado.
Você já se perguntou sobre o que consegue fazer com este "não" que recebeu? É que devido a dor que ele promove, nem pensamos na hipótese de aceitá-lo, parece que se fizermos isso sofreremos ainda mais. Só que não. A verdade é que sofremos quando resistimos, quando aceitamos conseguimos desenvolver a habilidade de sermos flexíveis e adaptáveis. E será que não é este um dos sentidos de se viver em sociedade?
Não é porque você recebeu um "não" que precisa negar o seu real desejo. Talvez você possa deixá-lo ali num cantinho para que em um outro momento, em uma nova oportunidade você o lance ao mundo e quem sabe, se satisfaça. Os "não´s" não precisam ser o fim, eles são tão situacionais quanto os "sim´s" que você recebe.
Se permita chorar, esbravejar, doer. Mas após a liberação das suas emoções, viva em prol da sua saúde mental: aceite aquilo que você não pode mudar.




sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O que alimenta a sua zona de conforto?

Com frequência observo que no início de cada ano as pessoas fazem planos que envolve sair da sua própria zona de conforto. O desejo de fazer diferente do ano que passou é ás vezes tão intenso que a proposta de romper com as barreiras que impediram a execução de determinada atividade até então são substituídas pelas promessas de mudança. O que é extremamente saudável, afinal, toda proposta de movimento que contribua para o próprio bem estar se torna sinônimo de saúde e qualidade de vida.
Contudo, ao se colocarem diante da execução do que se propuseram é comum o contato com um grande sabotador de mudanças: o medo. Sim, a zona de conforto não é construída por uma "preguiça" boba, ela é alimentada pelo "monstro" do medo que entende que é melhor permanecer onde está e não ter prejuízos desconhecidos ou maiores que aqueles que já tem, do que investir em uma mudança e correr o risco de se deparar com um sofrimento novo, ou ainda, com aquele sentimento que mais atormenta o indivíduo. Este sentimento é completamente único, individual, singular. Para alguns há o medo de se sentir humilhado, para outros existe o medo de se sentir sozinho, abandonado, há quem tenha medo da frustração, de se arrepender, de não conseguir lidar com as consequências que a mudança; efeito da conquista; exigirá. Cada indivíduo mantém à sombra os seus medos com o intuito deles não aparecerem e estes medos dizem muito sobre cada personalidade.
"Neste ano farei academia!", "Até o fim do ano vou viajar sozinha pro exterior!"... E então se deparam com a timidez excessiva diante da ideia de mostrar o próprio corpo para um professor fazer uma avaliação de treino, ou com o medo de ter uma crise de pânico ao se perceberem dentro de um avião. Apesar de todos os prejuízos que se tem evitando lidar com estes medos, existe também o conforto de não ter que mobilizar o que causa dor emocional, é neste momento que a famosa zona de conforto se instala e mecanismos para não sair dela são construídos a nível inconsciente: "Eu não preciso de academia mesmo!", "Meu chefe nunca me dá férias!"...
Isso não significa que o desejo por estas conquistas desaparecem, ao contrário, ele ganha força à medida que é negado à nível inconsciente, mas o que acontece é que mesmo sabendo que muito da sua vida mudaria se conquistasse aquilo que quer, o medo de transpor as barreiras impostas pelo medo é maior.
Algumas pessoas chegam a dizer que precisam se conformar que nunca conseguirão o que querem, que não nasceram para isso, que precisam aprender a conviver com a frustração de não ter uma parte fundamental para si. Parece para elas que não há saída a não ser desistir. Mas, a própria desistência é uma questão de ganho, então, é necessário fazer o oposto: começar a identificar os prejuízos em todas as áreas da vida que se tem devido ao "monstro" que impede a execução daquela promessa de ano novo específica.
Entender o que aquele medo em específico diz a respeito da própria história de vida é fundamental para conhecer as restrições nas quais se aprendeu a viver. O medo de mostrar o corpo e se sentir humilhado por alguém que o próprio indivíduo julga "melhor" que si certamente influencia no seu trabalho, na sua vida familiar, social... A questão de inferioridade talvez oriente outras áreas da vida deste indivíduo, mas devido a ele ter encontrado recursos para mascará-la: ser autônomo, ter amigos que solicitam muito da sua ajuda, cumprir as expectativas familiares; faz com que não tenha que enfrentar este medo diretamente, algo que teria que fazer na academia, por exemplo. Do mesmo modo ocorre com o segundo exemplo: enfrentar o medo de se sentir sozinha em algo que ela considera instável e ou perigoso, pode também refletir nas demais áreas da sua vida: se cercar de pessoas sempre por perto, solicitar engajamento do outro constantemente para não se sentir vulnerável, querer garantias de que terá sempre uma relação para lhe dar suporte... Enfim, todos estes casos são hipotéticos mas permitem esboçar de que forma o medo que alimenta a zona de conforto do indivíduo reflete nas demais áreas da sua vida.
Então, uma forma de lidar com o que amedronta é enfrentando aos poucos, com suporte, dentro de uma linha própria de segurança, aqueles medos que orientam a nossa vida mas que por questões de manutenção da saúde psíquica estavam afastados da nossa consciência. Com isso é possível se aproximar aos poucos deles, sempre com cautela para não causar traumas novos e intensos em cima daqueles que já existem. Isto é feito em psicoterapia através de autoconhecimento e claro, da vontade de mudar.
Sua zona de conforto sente "fome", identifique de que ela se alimenta, evite que ela cresça. Não permita que seus medos atrapalhem os seus sonhos.




E se a nova tendência for ser feliz?

O que é que está na moda? Cintura alta, baixa, decote profundo, gola alta, tom pastel ou talvez um neon...? Mas, e se eu não me sentir bem vestindo aquilo que é tendência? Se a calça alta apertar demais minha cintura a ponto de me trazer desconforto? Ou se a calça baixa realçar aquela parte do meu corpo que não é a das minhas preferidas? E ainda, se aquele modelo de decote não for indicado pra minha anatomia mas for o que eu mais me sinto confortável, e ou, bonita?
A estética não surgiu ao acaso, ela é referência nas artes, arquitetura, moda... Serve como uma forma de harmonizar um ambiente ou roupa para torná-la mais aceitável para uma maioria de acordo com referências culturais e históricas. Deve formar sugestões de conceitos, opções e hipóteses a serem consideradas, mas jamais se tornarem regras universais a serem seguidas.
Conceitos de certo e errado constituem pólos opostos que estão presentes em tudo no mundo, e existem diversas teorias a respeito: religião, capitalismo, moral... Contudo, quando falamos de felicidade, precisamos selecionar não somente o que é considerado socialmente adequado e excluir o que é inaceitável, mas sim substituir estes pólos pela palavra saudável. Esta que consegue compreender a singularidade de cada indivíduo e respeitar a sua própria história de vida, aquilo que o toca sentimentalmente e que traz sentido para a sua existência.
Voltando à questão de estética, padrões e moda, sabe-se que quando existe uma referência, há a tendência para a comparação uma vez que seguir o que é aceitável socialmente promete trazer ganhos sociais: aceitação, mais relações, inclusão, elogios... Ou seja, ao comparar-se àquilo que é "correto", o indivíduo questiona o próprio valor e nega a sua própria individualidade se tornando apenas mais um tentando ser igual. É deste modo que sentimentos de inferioridade, autocobrança, menos valia e raiva do próprio corpo se manifestam. Na tentativa de ser aceito o indivíduo acaba se negando e construindo relações em cima daquilo que tenta ser mas, que não é. Assim surgem sentimentos de insatisfação, inveja, sensação de que não é amado incondicionalmente, existe sempre um vazio, uma falta que não se preenche até porque o antídoto para ela não é o que agrada o outro mas sim o que agrada a si mesmo.
Então, embora a mídia enfatize padrões e conceitos radicais para fortalecer o marketing e girar o comércio, é fundamental que cada ser humano ao invés de seguir o que é ditado, se questione primeiramente a respeito do que realmente gosta e lhe faz bem, que contribui para a sua própria aceitação.
Algumas pessoas brigam com seu próprio corpo, se diminuem, desqualificam, repudiam quem verdadeiramente são, esquecem que o corpo o qual habitam a seguem desde o ventre materno, que cada parte sua já foi de uma criança cheia de sonhos, de fantasias onde tudo seria possível, onde seriam amadas pelo o que se tornariam e não pelo o que vestiam.
Por isso proponho uma atividade: pegue uma foto sua de quando era criança, analise cada elemento da foto: expressão, postura, roupa, corpo... Depois vá até um espelho e analise cada parte sua: seu olhar, seu sorriso, e todos os outros elementos observados na foto. Perceba onde está aquela criança que merecia amor simplesmente por ser uma vida. E tente encontrá-la dentro de si.

Você não precisa fazer tanto esforço para se sentir amada, aceita, respeitada. Você somente precisa respirar fundo e querer bem a sua morada, o seu corpo, afinal, é nele que você habitará para sempre. Talvez a nova tendência possa ser transformada naquilo que a faz feliz.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Você se ama tanto quanto ama alguém?

Amor próprio não tem a ver com orgulho, vingança, desdém ou qualquer outra ação para punir o outro pelo dano causado. Até porque a responsabilidade do dano é do outro, mas a abertura para tal dano, é nossa. Amor próprio se trata de ações onde mesmo amando, gostando, querendo bem o outro (com suas qualidades e falhas humanas), abdicamos da relação porque percebemos que ao permanecer nela teremos mais dor do que prazer.
Então, amor próprio tem a ver com cuidar da própria vida independente dos afetos que se tem por outrem, é sair daquele lugar que até então era aconchegante, é dizer tchau mesmo que a vontade no momento seja a de fingir que está tudo bem e ficar ali agarrada (o) em um passado feliz. É saber reconhecer os próprios limites, é dizer o que vier a tona porque o medo de não ser mais aprovada (o) não faz mais nenhum sentido.
Mas, por que temos dificuldade de nos amar na mesma proporção que amamos o outro, ou seja, de onde surge a baixa auto estima? A auto estima corresponde a forma como o indivíduo aprendeu se perceber no mundo e ela é adquirida através das primeiras relações deste indivíduo. Famílias onde o padrão de cobrança impera, em que a competitividade é uma constante, ou que mantém condutas de censura e castração, contribuem para que o indivíduo construa crenças negativas a respeito de si passando a se perceber como um ser incompleto e insuficiente. O medo da solidão fortalece esses sentimentos negativos a respeito de si, fazendo com que o indivíduo se doe totalmente nas relações sem respeitar os próprios limites até mesmo porque para ele não existem limites para evitar ficar sozinho e para ganhar a atenção de alguém que julga mais importante que a si mesmo.
E, como podemos desenvolver o amor próprio em uma auto estima fragilizada? Identificar todos os prejuízos da falta de amor próprio é fundamental para que o indivíduo não faça somente exercícios disciplinados para se amar, mas sim que ele perceba as consequências do seu padrão de funcionamento e todo o sofrimento envolvido nele. Começar a olhar para si ao invés de somente para o entorno também é importante para o indivíduo entrar em contato consigo e resgatar lembranças onde se sentiu amado, foi reconhecido e respeitado por aquilo que é e que faz. E assim, ao reconhecer o sentimento de amor dentro de si, inicie um processo eterno e interno de auto cuidado e de carinho por quem é.
Se amar então significa calçar o sapato no número certo pra não causar nenhuma dor para os pés, nenhum prejuízo para uma parte que é sua. Significa se permitir sair de tudo que aperta, prende, machuca, dói, que não é compatível com a nossa saúde emocional e projeto de vida.
Então preciso te perguntar, existe algo hoje que machuca o seu EU? Existe algo que te aperta, aprisiona, te nega e não te aceita por inteira (o)? Se sim, talvez seja a hora de tirar estes sapatos e buscar aquele que não só te enfeita, mas que também te cuida, te conforta e te ajuda a dar mais passos adiante.
É o teu corpo, são as tuas emoções, são os teus sentimentos. É a tua vida.
Tudo bem seguir em frente sem os sapatinhos dos seus sonhos, melhor seguir descalça do que com pés machucados.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Prazer x Responsabilidade: Como conquistar o equilíbrio?

Quem é que não gosta de comer uma comida gostosa, ouvir uma boa música, rir com os amigos, namorar, assistir filmes e séries…? Todas as atividades que são orientadas pelo prazer são facilmente desenvolvidas por qualquer pessoa, principalmente se essas atividades exigem pouco esforço para a sua execução: assistir a um filme, dormir, ouvir música… Isso porque o nosso corpo gasta menos energia executando estas atividades, o que contribui para diminuição do desgaste físico e emocional.
O problema é quando o contato com o prazer se torna exagerado, é como um remédio que tem o objetivo de curar ou amenizar a dor, mas que quando usado em grandes proporções se torna um veneno capaz de trazer sérios danos para o indivíduo.
Algumas pessoas relatam em terapia que não possuem “freio” para os prazeres, não conseguem controlar as suas emoções e buscam constantemente obter alguma satisfação mesmo sabendo que poderão sofrer prejuízos significativos devido a isso. É o caso de pessoas que compram indiscriminadamente apesar das dívidas que já possuem, que comem de forma descontrolada apesar de saberem que isso acarretará em culpa e posteriormente, insatisfação, pessoas que traem embora temam as consequências da descoberta pelo (a) seu (sua) parceiro (a). Associado a estes comportamentos está a dificuldade de lidar com qualquer tipo de frustração mesmo que ela prive somente alguns poucos minutos de prazer e mesmo que insistir em um prazer traga mais prejuízos do que lidar com a frustração momentânea. A fuga é um mecanismo comum diante do contato com a frustração, e vem geralmente associada a raiva descomedida por ser privado de alguma satisfação.
Os excessos denotam dificuldade de encontrar sentido na vida além das satisfações proporcionadas por fatores externos. Logo, o indivíduo passa a desenvolver uma compulsão por prazer na tentativa de não entrar em contato com a sensação de vazio, tristeza e falta de sentido com relação a própria vida. Todos estes comportamentos escondem traços depressivos, e podem não ser identificados pelo indivíduo, suas queixas estão mais baseadas na dificuldade de insistir em algumas atividades e perda de interesse em atividades que antes ofereciam satisfação. Ás vezes as queixas surgem através de irritabilidade com algo ou com alguém que limita seu prazer, e sobretudo, com a falta de controle sobre algo ou alguém.
Dois passos são fundamentais para lidar com esta situação: é necessário aprender a “apertar o freio dos prazeres”, e sanar as insatisfações que constituem o gatilho básico para a busca constante por prazeres.
Um modo de apertar o freio dos prazeres é intercalando os mesmos com alguma responsabilidade. É necessário treino e dedicação, e a motivação para esta dedicação pode partir através da identificação dos prejuízos que se tem ao seguir a vida baseado na procura por satisfações o tempo todo. Então, quando o indivíduo perceber que por trás de cada prazer há um prejuízo, poderá construir mentalmente um novo modelo para viver a curto, médio e longo prazos. Através das metas que devem começar brandas, o indivíduo poderá avançar não de forma a substituir aquilo que o satisfaz por aquilo que não o satisfaz, mas sim buscando enfrentar as insatisfações até que o prazer se torne uma recompensa por ter cumprido algumas responsabilidades.
Para lidar com as insatisfações é necessário identificar que mensagem que elas passam, às vezes, crenças disfuncionais é que alimentam a fuga daquilo que julga-se não ser prazeroso e ao enfrentar as insatisfações ou responsabilidades, se observa que elas nem exigem tanto esforço assim, e que podem ser conciliadas com prazeres.
A busca por um profissional da psicologia é importante para desenvolvimento do autoconhecimento, identificação de crenças negativas, elaboração de sofrimento e construção de novas formas de enxergar a vida. Pense nisso, o seu maior prazer deverá ser a construção da sua própria paz.

"Eu não sinto" - Qual a relação entre o toque e a afetividade?

O tato é o primeiro canal de comunicação do indivíduo com o mundo. É através do toque que o bebê sente que existe algo além dele mesmo, que percebe sensações como frio, calor, que identifica se o toque lhe dá prazer ou dor. A pele é o órgão responsável por receber o toque, é através dela que as sensações são recebidas e identificadas.
As sensações que cada indivíduo tem ao ser tocado estão relacionadas ao modo como ele recebeu carícias na infância. Assim como todos os mamíferos, os bebês humanos possuem a necessidade de se sentirem seguros e aconchegados, e a forma como buscam a satisfação desta necessidade é através do contato próximo com outro, e que se dá principalmente com os seus genitores. Assim, será através das carícias que o bebê obterá o afeto e a intimidade que precisa, já o alimento e a tonalidade da voz dos pais, por exemplo, serão complementos e reforçadores destas carícias, justamente porque a pele é o primeiro plano da consciência humana.
O ser humano por possuir capacidade simbólica de interpretar e dar significado às suas experiências, consegue dar significado ao toque, simbolizar e interpretar por exemplo um aperto de mãos ou um cafuné, uma massagem, um beijo, uma relação sexual, sendo que este significado será dado de acordo com os limiares de prazer e desprazer que as sensações trazem.
Se você, quando criança caiu e machucou os joelhos e pediu para a mãe cuidar dos ferimentos, sabe o quanto o toque alivia dores. Se você já perdeu alguém e no momento do sofrimento recebeu um abraço, sabe o quanto o toque pode confortar. Se você já sentiu muito medo de enfrentar uma situação e naquele momento teve uma mão para segurar a sua, sabe o encorajamento que o toque traz.
Contudo, não são todos os indivíduos que conseguem integrar o ato de  tocar com os sentimentos. Para algumas pessoas, tocar e ter sentimentos são canais totalmente diferentes onde um independe do outro. A falta de contato corporal ainda nos primeiros anos de vida contribui para a dissociação do sentir e do pensar, estruturando desta forma personalidades que trazem consigo uma sensação constante de vazio, medo de entrega afetiva, falta de contato corporal e tendência a racionalizações. Assim, entende-se que a forma como as necessidades de carícias foram supridas na infância será expressada no modo como o indivíduo quando adulto irá demonstrar seus sentimentos tanto para si quanto para àqueles com quem se relacionar.
O medo de sentir dor é o conflito básico de indivíduos que possuem tendência a racionalização e dissociação dos sentimentos, isso porque em algum momento da sua vida este ser entrou em contato com situações de extremo sofrimento buscando na razão uma forma de evitar entrar em contato com qualquer tipo de dor. Contudo, ao evitar-se entrar em contato com a dor, evita-se também entrar em contato com o prazer, o que contribui para o fortalecimento da sensação de vazio existencial e de insatisfação constantes.
Uma forma de lidar com o medo de sentir é tentar identificando a visão que o indivíduo tem de si, e principalmente, quais ganhos e prejuízos de fortalecer este traço de carácter. Identificar comportamentos que contribuem para a fuga dos sentimentos também possibilita um reajuste comportamental, contudo, a mudança principal precisa ser a partir dos próprios sentimentos. Quando avaliamos todas as crenças apreendidas no decorrer da nossa vida, começamos a sentir as emoções que elas causam e o que está indiretamente contido nelas. É assim que a elaboração de traumas e conflitos que justificam o bloqueio emocional podem ocorrer.
Se você se identifica, busque auxílio psicológico, perceba o que o medo de sentir tem trazido para a sua vida, e como você gostaria de preencher a sensação de vazio existencial que sente. Se permita mudar, é através do toque que conseguimos identificar sentimentos registrados na nossa psiquê e ressignificá-los.

domingo, 20 de agosto de 2017

Como você lida com as frustrações?

Receber um “não” é sem dúvidas, frustrante, afinal, ele corresponde a uma negação da satisfação de um desejo ou de uma necessidade que não depende unicamente de nós. Quando somos crianças não compreendemos bem as regras sociais, e somos movidos pelo desejo imediato, embora muitas vezes ele nada tenha a ver com uma real necessidade. Pedimos para a mãe nos deixar comer o doce antes do almoço e somos frustrados ao ouvir: “Agora não”. Choramos, tentamos barganhar, batemos o pé, brigamos, tudo em prol de satisfazermos a nossa vontade, de sermos atendidos, de ganharmos o conflito.
Acontece que conforme os anos passam, as regras sociais exigem que o indivíduo se adapte à elas, deixando de lado muitas vezes a sua própria vontade. Logo, o controle das próprias emoções se torna fundamental para uma convivência pacífica em sociedade. Contudo, algumas pessoas possuem dificuldade em se adaptar a regras, principalmente porque elas geralmente exigem responsabilidade e abdicação dos próprios prazeres.
Provavelmente você já ouviu a expressão: “Não sabe perder!”. Algumas pessoas não admitem uma frustração, apresentam dificuldade em aceitar determinada perda (por mais banal que ela possa parecer: jogos, competições, promoções…), e assim entram em contato com vários sentimentos que possuem representações extremamente dolorosas, geralmente associados aquilo que o “não” representava para elas na infância, agindo deste modo, como se ainda fossem crianças.
Há quem fique triste e melancólico, fazendo da perda uma barreira para a busca de novos “sim’s”, há quem considere que o “não” que fora recebido corresponde a uma punição por não ser merecedor, ou bom o suficiente, deste modo afetando a própria auto estima e podendo desenvolver quadros depressivos. Mas há também quem fique irritado e com dificuldade de controlar a própria raiva, agredindo verbal ou até fisicamente qualquer pessoa que tente amenizar a situação.
A capacidade de lidar com frustrações está diretamente ligada a forma como o indivíduo aprendeu a se ver diante da vida. Este aprendizado é construído ao longo da história de vida de cada pessoa, a forma como os pais ou educadores ensinaram a criança a lidar com perdas contribui significativamente para o modo dela se enxergar em sociedade.
Pessoas com comportamento imediatista, que lidaram precariamente com frustrações ou que não entraram em contato com elas porque conseguiram a satisfação de todas as suas vontades seja através de um choro, de um grito, birra ou briga, aprenderam que este é um meio de conseguir o que desejam, e diante do recebimento de um “não” agem desta mesma forma buscando transformá-lo em um “sim”. A agressividade diante da frustração também é comum em quem não aprendeu a pensar em sociedade, ou seja, além do seu próprio bem estar, deste modo, direta ou indiretamente descontam a raiva que sentem em quem se aproximar ou interromper os seus desejos.
Para lidar com as frustrações de forma saudável e adulta, é necessário analisar os sentimentos que um “não” causa, estes sentimentos precisam ser analisados para que seja identificada a sua origem e elaborada a sua causa. Esta alternativa é importante porque contribui para que o indivíduo reestruture a forma de ver a vida e também de se enxergar nela.
Compreender que desejos não são o mesmo que necessidades também é importante para a aceitação da frustração, quando a frustração for designada a uma necessidade, é fundamental que o indivíduo busque meios de exercer os seus direitos.
Aprender com o resultado das ações pregressas: brigas, discussões, conflitos, também auxilia no enfrentamento da frustração com uma nova ação, mais condizente com a idade e com a responsabilidade que se tem.
Por isso, ao perceber que você tem dificuldade de controlar as suas emoções diante de uma frustração, procure identificar os pensamentos e as sensações que surgem e busque auxílio psicológico para elaborar suas questões e aprender a administrar de forma saudável os “não’s” recebidos ao longo da sua vida.